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quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Michel F.M. - Criações 2026 - Parte 6


Michel F.M. - Criações 2026 - Parte 6

🛩️2026🛩️



Utopia em fiapos 

só há uma coisa
que eu queria,
mas o que queremos, 

no final das 
contas 
não importa.

ser mais solidário 
hoje,
do que fui ontem.

nem que fosse 
obrigado, a ser egoísta 
comigo mesmo.

ser mais solidário 
amanhã,
do que já fui um dia.

30/08/26






Desmundo em Três Atos

1º Ato - Libido Neoliberal 

quando tá duro 
é muito pequeno,
quando tá mole,
desapareceu.


2º Ato - Centrão 

nem de direita 
nem de esquerda,
no meio do olho
de um cu despregado.


3º Ato - Quarto Reich 

quando nossas janelas 
taparem de merda,
elegeremos a latrina
para nos salvar.

30/08/26






Melquisedeque 

Apesar do nome bíblico, 
Ele nunca havia lido
As sagradas escrituras.
Não conhecia seus
Capítulos ou versículos,
Nem os personagens 
Tão famosos que
Atravessaram as eras.

Apesar do nome bíblico,
A única expectativa 
Que ele mantinha,
Era de viver em paz.
Sem que nenhum cretino
Justificasse as mazelas
Da vida, como sendo 
A vontade de Deus.

01/09/26





Se a vida te der pólvora 

Mentiu para si mesma,
Enquanto atirava verdades
Na minha direção.

Uma saraivada após 
A outra, sem pausa
Pra recarregar.

Não é sempre que
Se presencia, alguém 
Tão motivado.

Eu particularmente,
Nunca havia presenciado 
Tanta motivação,
Entre os lençóis.

[éramos muito bons
em foder, mas melhores 
ainda em ferrar.]

Entretanto, acho que a colisão 
E o estrago, oferecem
Um espetáculo mais 
Grandioso que o romance 
Convencional.

Você estava inteiramente 
Equivocada, quando
Deixou claro, que eu não 
Era nada para ti.

Eu fui teu grande erro
Cometido sem pensar,
Que se arrasta por uma
Vida de arrependimento;
E isso minha cara,
É alguma coisa.

02/09/26





363 graus

Olhaste ao redor
E não viste nada.
Olhei ao redor e não vi também.

De novo a sensação de inércia.
Estagnados na neblina 
Turva, olhamos pros lados
Para atravessar, quando
O perigo estava abaixo de nós.

Tão bem nos esquecemos 
De olhar para cima, quando
Era a retaguarda que nos
Preocupava.

Mas não se esqueça, 
Daquela lembrança escorregadia,
Que virou-mexeu nos escapa
Pela memória franzina.

Apesar do futuro incerto 
E das embaçadas suspeitas,
Do que possa ou não vir-a-ser,
Nós mudamos o mundo
Uma última vez,
Hoje mais cedo.

04/09/26





Especialista em Constrangimento 

Não pense que tenho algo 
Relevante a dizer.
Não pense que alguém tem.

Sou só um poeta qualquer,
Mão-de-obra barata do precariado
[inadequado e descartável],
Que torce o ócio, forçando até o limite,
Fazendo dele respingarem versos.

Mas o frenesi tem sempre
Mais a oferecer,
Do que o tédio da ociosidade.

Pena que o frenético 
Não seja optativo, fazendo 
Da balbúrdia nosso estado natural.

Sem pretensão alguma 
De explicação,
Deixo que os equívocos 
Se acumulem.

Fiz do incompreensível 
Minha profissão 
E aperfeiçoo-me 
Em todas ocasiões que posso.

Escolho permanecer em silêncio,
Até que a ausência de respostas
Se torne insuportável.

Enquanto alguns insistem 
Em dizer algo sobre tudo, 
Outros nada tendo a dizer
À todos confundem,
Com tua chocante invisibilidade.

04/09/26





O sentido virá à tona

Às vezes um poema 
É só um poema,
Por vezes uma rima
É só uma rima,

Não guardando em si
Nenhuma revelação 
Surpreendente, nenhuma
Mensagem espiritual elevada.

Se ao menos por um flash
Instantâneo, não nos ocupássemos 
De toda podridão que nos cerca,

Talvez sentíssemos em nossa
Pele abatida e desidratada,
Um último sopro da brisa primaveril.

Mesmo uma flor morta,
Caída-sêca-despetalada,
Ainda serve para adubar.

06/09/26







Amor Fati

Abraçar um cavalo açoitado 
E pedir-lhe perdão
Pela humanidade,
É o único ato de sanidade,
Num mundo tomado
Pela loucura.

06/09/26








Miniaturas de Porcelana

Próximas demais 
Da quina da mesa,
É sempre um risco 
Deixar peças frágeis,
Desprotegidas por aí.

Delicadas e meigas,
Necessitam de zelo,
Exigem cuidado atencioso 
E constante dedicação.

Eram três as pequenas 
Miniaturas de porcelana,
Raridades feitas para 
Um habitat seguro.

Esquecidas num quiosque 
De praia, passavam 
De colo em colo,
Em troca de um copo de açaí.

Como foi que moemos 
A inocência?!
Quando foi que a partimos 
Em mil pedaços?!

Então resta a pergunta final,
Quem poderá nos punir?!
E onde haverá castigo
Suficiente para todos nós?!

06/09/26




Revolta dos Fantoches 

Por mais perspicaz 
Que fosse o titereiro,
Nem mesmo uma única 
Vez, supôs que tal ocorrência 
Acontecesse em tua custódia.

Imediatamente após 
O rompimento dos fios,
Que a aprisionavam no cenário,
A marionete correu, fugindo 
Consciente, de tua trágica paródia.

E correu tão rápido, que ficou
Surpresa consigo mesma,
Ao descobrir que havia nela
Tamanha articulação.

Finalmente escolhia
Teu próprio movimento,
Um caminho que nunca 
Imaginara trilhar e no meio
Da encruzilhada, encontrou-se

Diante deles, fugitivos silenciosos,
Bonecos de ventríloquo, velhos amigos 
De jornada encarcerada, agora soltos,
Num mundo inteiro de possibilidades, 
Só para liberdade deviam satisfação.

07/09/26





Sonho encontra o concreto 

Especulando cada uma das ilusões,
Colhidas e peneiradas,
Estocadas no celeiro 
De nossas suposições.

Quando saturado o armazenamento,
Uma parcela reciclada,
Outra descartada no 
Acostamento das decepções.

Algumas poucas singulares que são,
Em tua singularidade 
Nada mesmo convencional,
Encontram a profetizada realização.

Ainda que não mais seja um
Entusiasta das rimas e combinações,
Peço aqui perdão, aos leitores e à leitura,
Pois se fizeram elas necessárias,
E abundantemente enjoativas até então.

07/09/26





M de Manzoli 

transcorria 
todos os seus dias
em alerta, 
constante estado
de vigília.

entendia tanto de história 
quanto geografia, mas versava
com fluência entre filósofos,
sociólogos e antropologia.

tinha um coração enorme
e uma mão excelente 
pra poesia.

ela amava mais os animais 
que as pessoas.
ninguém poderia 
culpá-la por isso.

e depois
de tudo que leu, 
viu e viveu,
você concordaria. 

08/09/26





Arranjo para Begônias 

as palavras 
eram de julgamento,
os olhares 
de condenação,

mas nada se comparava 
ao toque, truculento,
em tons que alternavam
entre vermelho vinho,
azulado e roxo escuro.

habituada aos
desprezos contínuos,
fazia dos sorrisos
tua arma letal.

alguns são 
mesquinhos
e egoístas 
de vez em quando,

outros são 
a todo momento 
e sem moderação.

desde muito cedo
foi iniciada na relação 
violenta, onde os
desentendimentos
são sufocados
pela força.

ambiente cujo
o diálogo jamais
prosperou.

vivendo tanto nisso
que se afeiçoou à dor,
fazendo das cicatrizes 
tuas melhores confidentes.

mas ela só queria, 
o que todo mundo 
quer.

alguém que pudesse 
amá-la 
como ela é, 

alguém que 
não arrancasse tudo dela 
em troca disso.

mas neste poema 
ela dita teus
termos,

na estrofe final 
rompeu as correntes,
saiu pela frente,

refez tuas linhas 
e experimentou a felicidade, 
ao menos neste último verso.

09/09/26




Nano-romance

me equilibro com cautela 
em teu sorriso, 
uma ampla extensão 
a se percorrer.

de uma margem à outra dos teus lábios,
vão se assentando 
contrariedades, 

com um elevado índice de 
massa corpórea. mas nosso treino 
vigoroso potencializa as alegrias,

numa rotina diária severa, que embala
séries e repetições,
ultrapassamos as debilidades 
momentâneas, um intervalo 
de cada vez.

em alguns casos particulares 
são os gestos minúsculos,
do cotidiano despercebido,
que sustentam um amor
inteiro.

11/09/26





Jogo Rápido 

Ele sacou um "eu te amo" 
com efeito,

Num movimento rápido 
E surpreendente,
Ela devolveu o "IDEM",

Bem na quina 
Da mesa.

11/09/26






Tempo Fechado no atol das Ba-rrimas 

Quando aquele furacão 
Tropical de palavras,
Se viu diante

Do ciclone das reflexões,
Não restou-lhe outra alternativa,
Senão aquela velha 
Proposta indecente:

Nem que as consequências 
Derrubem toda prosa
Acumulada,

Vamos juntos 
Inundar o mundo 
De poesia.

12/09/26





O Despertador de Cthulhu 

com todo esse mundaréu 
que desaba lá fora,
só queria uma única coisa,
tá roncando agora.

12/09/26





Poesia-Vale-Tudo

Soquei três palavras chulas
Num verso sem pontuação 
Estrofe imobilizada por estrangulamento 
Desrima num fôlego [apagou]
Era nocaute técnico 

12/09/26






Nunca aprendi usar a crase

Nem todo mundo aprende a ler,
Quem dera pudessem todos.
Aqueles que aprendem nem sempre
Interpretam, quem dera entendessem.

Aprendi muito com o xadrez,
Ele nos ensina o cálculo,
Mesmo nunca tendo aprendido
A calcular, nem decorado 
A tabuada.

(depois de aprender as regras
é possível quebrá-las)

Quando aprendi o básico 
Sobre malabarismo, mantive no ar
Ao menos três malabares.

E o equilíbrio veio da corda-bamba,
Que hoje chamamos de slackline,
Apesar de não serem a mesma coisa,
Nos proporcionam a mesma emoção.

Lutar contra a gravidade, me fascina.
Já falei sobre isso algumas vezes,
Só que a física nunca cai de moda.

[Então parei este poema 
No meio, para apreciar o vôo 
De um beija-flor, num vaso da varanda]

Voltando ao poema, podemos
Explorar muito sobre aprendizado,
Mas tudo o que deixamos de aprender,
Forma um paralelo de universos
Empanturrados do desconhecido.

Todavia em resumo, aquilo que 
Chegou até nós e decidimos aplicar 
Em nossas instantâneas existências

(ainda que escrevamos na forma inculta),
Nos faz suportar até mesmo
Todas essas normas gramaticais.

12/09/26






Fusão Poética de Cenários Banais

[As Prosaicas Aventuras de Poema Esquálido e Poeta Exaurido] 

Destituído de todo e qualquer propósito 
Ou significado superior,
Alguns poemas não vieram

Para dizer alguma coisa,
Alguns foram concebidos
Para dizer coisa nenhuma
Ou menos ainda.

Ocupar espaço na lauda,
Preencher o vazio com
Um desperdício insensato 
De palavras tolas.

Uma obra sobre a mais pura
Ausência de acontecimentos, 
Desgatilhos emocionais.

Coletando todo lixo dos aterros
Literários e descartando-os
Juntamente com os entulhos 
Espaço-temporais, de nossa Era-Oca.

[As Horripilantes Aventuras de Poema Horrível e Poeta Exausto]

Dos amores avassaladores
Não restam resquícios,
Dos desastres aterradores e paralisantes 
Nenhum sensacionalismo,

Para se converter em criação 
Poética, com terminologias 
Rebuscadas, que fazem o autor 
Se passar por alguém, muito 
Mais intelectual do que realmente é.

Alguns poemas são só 
O exercício fútil, canalizado
Pelo péssimo hábito em produzir 

Trovas contra si mesmo, de um poeta 
Cansado demais, para
Dizer algo relevante.

13/09/26





Com quais assuntos se ocupam as borboletas?

Quem as observava ao longe,
Não poderia sequer especular,
Quais temas alimentavam tuas
Cambaleantes conversas.

Ao se aproximar de seu idioma
Incompreensível e destituído 
De sonoridade, que não possuía 
Sílabas ou articulação,

Apenas suas asas num esvoaçar
Persistente, emitiam um mínimo 
Ruído, infinitesimal perto do
Som barulhento das ocorrências 

Imensas, que se alastram
Mundo afora. Que assuntos
Podem interessar criaturas 
Tão intrigantes, que fazem da vida
Esta dança descompromissada.

14/09/26






Sinfonia dos Maltrapilhos 

Que reme 
Enquanto lhe sobrarem forças,
Que rime quando não houver escolha.
- Faremos arte até o fim.
 
Aponte para o horizonte 
E caminhe na direção daquele
Que se afasta a cada passo.

Jogue os dados na fogueira, 
Pois a sorte nós fazemos.
Aos seres azarados não resta 

Alternativa, senão cuspir 
No prato da fortuna.

Que os maltrapilhos 
E escalavrados façam do
Lamaçal teu templo de glórias.

E nos instantes derradeiros,
Quando tudo mirar pro
Inescapável recomeço,

Lembre-se de esquecer 
O que não vale ser lembrado
E não se esqueça do primordial:
- Faremos da arte o nosso fim.

15/09/26





Poema-Relâmpago

Estava finalmente estraçalhado 
Em mil pedaços meu coração,
Cada fragmento projetado 
Numa trajetória diferente.
Mas o brilho cegante, não causou
Tanto espanto, quanto 
O estrondo ensurdecedor.

18/09/26






Versenário

Nunca entendi nada sobre o amor.
Existe um senso-comum,
De que poetas são investigadores 
Da alma humana e de tuas
Mazelas, é tudo besteira.

Não dominamos nenhum 
Saber profundo e misterioso,
Que abarque as incertezas 
Insuportáveis e contemple os
Segredos remotos de eras perdidas.

Nunca consegui expressar 
O que sinto, mesmo tendo escrito 
Milhares de poemas,
Nem sempre a prática 
Leva à perfeição.

Talvez eu tenha errado na técnica,
Ou o conteúdo disso tudo,
Seja tão subjetivo, que nem mesmo
Os maiores desbravadores do

Abstrato, possuem as competências 
Para concretizar, aquilo que já nasceu
Paradoxalmente, munido
De consistência e desprovido 
De solidez, condenado a ser intocável.

19/09/26





Joanete e os Membros Inferiores 

era ele 
novamente,
chegando 
sem aviso prévio,

o dolorido
formigamento,
tinha início 
na ponta do hálux 

e ia se alastrando,
percorrendo 
todo metatarso, 

para chegar 
ao desavisado 
calcâneo, 

que latejaria 
persistentemente 
pela manhã, 
a tarde inteira, 
até o fim do dia.

20/09/26




Errantes e teus inúmeros feitos

então 
com a voz meio 
engasgada,
encarando o nada,

ela disse, 
enquanto mastigava 
alguma coisa: 
isso foi 
um grande erro.

em contrapartida 
de maneira eloquente,
escorado no batente,
ele respondeu:

certamente,
este foi 
um erro crasso,

de proporções 
estupendas
e desdobramentos 
radicalmente estúpidos. 

e digo mais, 
é provável 
que tenha sido

ao mesmo tempo,
o maior e o pior 
de todos os erros.

20/09/26









As Grudentas Aventuras do Senhor Limbo 

Se esgueirando pela muralha 
Do corredor, alastradas numa
Formação inviolável,
Avistavam-se as legiões 
Esverdeadas.

Pouco mais concentradas 
Num canto que noutro,
Sustentando toda aquela 
Tinta descascada.

A previsão prometia
Algum resquício ensolarado 
No fim da tarde,
A meteorologia mentira 
Inescrupulosamente.

Seria mais uma semana
De borrascas torrenciais,
Onde já estava alagado 
O nível aumentaria.

Era um reino ensopado,
Abarrotado de súditos 
Implorando pela secura,
Que há muito havia abandonado 
Aquelas colinas encharcadas.

Local onde o único soberano,
Era o próprio clima liquefeito 
E ali, naquele brejo empapado,
Nenhum musgo que se preze
Ousaria desafiar-lhe.

21/09/26





Três Lunáticos uivando de costas para Lua

recortar um pedaço da noite estrelada,
emoldurando-a 
numa parede

apática, 
dum quarto vazio,
seria um belo gesto de admiração.

ao invés disso, oferecer numa
bandeja de prata, 
uma fatia caprichada,
daquela orelha esquerda cansada

de ouvir tantas asneiras,
comprovam que o amor e a loucura 
são as duas faces 
da devoção.

como não sei pintar atirando 
tinta na tela, 
despejo todo meu desespero 
no papel, 

na forma de sentenças avulsas,
pois não tenho 
paciência ou habilidade 
para digerir as ideias que me 
atormentam.

ao invés de criar uma nova corrente 
da pintura de ação,
como faria Pollock e seus
demônios tão familiares, 

abandono o gotejamento,
abraço forte a inundação
e me conforto em saber que ele fez 
arte, 

sóbrio ou severamente alterado,
até mesmo quando seu veículo 
[clássico conversível] colidiu,

após um capotamento a centenas 
de quilômetros, com aquela velha árvore 
despreocupada, 

usando teu espesso sangue 
como tinta e o para-brisa como tela,
arremessado através da janela,
numa última e violenta criação.

22/09/26







O Sorriso de Schopenhauer  

Voraz, teu pêndulo feroz,
Grande confidente das mentes
Debulhadas e servidas a tira-gosto.
Empilhe teus pleonasmos,

Seremos assim redundantes
Até expirar nossa validade,
Pendulando alegremente,
Num eixo (in)flexível.

De um lado a vida, como a certeza 
Da derrota, do outro a morte
Em inesgotáveis possibilidades.

Tudo o que não éramos,
Antes de ser, tudo aquilo que não 
Seremos depois de estar.

Melhor amigo das travessuras 
Que Cronos nos impõe,
Agora que os deuses também 
Se findaram, quem sabe nos reste
A concepção de nós mesmos.

Toda manhã que acorda vivo,
Deseja morrer.
Será que o dia em que amanhecer 
Morto, estará ele sonhando 
Com a vida?

23/09/26 - 06h23





♒2026♒



Uma última Balada para o Poeta-Imortal 

Bons poetas são aqueles 
Que escrevem belos poemas,
Inspiradores, emocionantes,
Reflexivos, questionadores.

Mas diferente destes, 
Existe também, num
Canto perdido da poesia
Maldita, aquilo que se denominou
Na inconveniência do escândalo,
De poeta-imortal.

Em tua distorção genealógica
E monstruosidade genética,
Aquela entidade absurda,

Amplamente absorta e absorvida
Pelo estranhamento da poiésis,
Conquista tal patamar,

Na inevitabilidade da perseguição.
Poeta-Imortal é aquele que foi
Censurado, foragido, rejeitado,

Encarcerado, banido, envenenado,
E como se não bastasse,
Amaldiçoado por teus versos,

Condenado ao exílio e à pena
Capital, testemunhando tua
Própria obra consumida e incinerada,
Diante da multidão ensandecida,

Clamando por tua ruína
Com tamanho fervor,
Que restou-lhe apenas 
A imortalidade.

23/09/26





Técnicas para se portar diante daquilo que trafega em ambas direções 

Acordar às duas e dezoito 
Da madrugada, para escrever 
Poemas desconexos, não
Se configura um hábito 

Saudável para nenhum rimante,
Que por ventura volte a ler
Tais impropriedades.

Desde muito cedo 
É preciso impor
Alguns limites em certas 
Relações. Jamais permiti,

Que determinadas ideias 
Me acordassem
No meio da noite, para
Dizer seja lá o que elas 
Queriam dizer.

Nunca deixe as incógnitas 
Assumirem o controle,
Elas são autofágicas 
E vão devorá--lo 
De dentro pra fora.

De modo igual,
Não permita que as
Opiniões tomem muito 
Fôlego, elas vem sendo 

Infladas há um tempo
Considerável e vão carbonizá-lo
De fora pra dentro,
Sem nenhum arrependimento.

24/09/26 - 02h18





Ricochete 

Processo eleitoral
Sujo e barulhento,

Abstinência recorde,
Brancos, nulos, inválidos,

Votação esmagadora,
Vitória incontestável.

Ninguém conhecia 
Tuas propostas,

Mas pelos descalabros 
Que reverberavam 

Do palanque, o estrago 
Já era garantido.

24/09/26






Inversamente Proporcional 

É tudo tão ingrato na arte.
Enquanto minhas horas
De sono, pioram gradativamente,
Meus poemas tendem a melhorar.

24/09/26






Crônicas de um Anatomista 

nunca 
escrevi 
poesia.

o que tenho feito 
nos últimos vinte anos,

é narrar 
meticulosamente
o embate corporal,

entre meu encéfalo 
estressado 
e a castigada 
bomba cardíaca.

24/09/26






Morro dos Ventos Tisicos  

Revirando o lixo 
Me encontraste,
Radiante em meio 
Ao fedor.

Diante destas seringas 
Descartadas como
Testemunha,

Eu contrairia um vírus 
Mortal qualquer por você,
Só para acompanhá-la 
Pelo vale da sombra 
Da morte.

Se isso não é amor,
Me diga em qual
Grau de esquizofrenia,

Em minha severa 
Catatonia, eu enfim 
Nesta sátira nefasta
Me enquadraria?

24/09/26





sábado, 5 de setembro de 2026

Michel F.M. - Criações 2026 - Parte 5


Michel F.M. - Criações 2026 - Parte 5

🪐2026🪐


Mansidão de um Poema Vivido 

Aquele leitor obcecado 
Pelas inúmeras leituras,
Às quais havia se submetido,

Completamente perdido,
Com as excessivas 
Interpretações,

Aproximou-se sorrateiramente 
Do poema, colocou-o 
Contra parede e interrogou:

Qual o teu sentido?!
A tua existência serve
A qual propósito?!
Responda agora,
Qual teu significado?!

O poema experiente,
Munido de todo seu
Autocontrole, encarou o leitor.

Após um silêncio 
Brevemente constrangedor,
Declamou: - Se busca respostas,
Não procure pela
Filosofia, ela só te dará 
Perguntas.

Quanto a mim, sou
Poema e como tal,
Não carrego sentido
Ou significado embutido, a não ser
Aqueles que você traz
Consigo.

À parte disso, 
Em toda extensão do meu ser, 
Tenho levado apenas poesia.

17/05/26





Definitivos, decisivos e incontornáveis

Nós iremos até o fim.
Enfrentaremos 
Tudo o que há para ser 
Enfrentado,

Viveremos tudo,
O que existe para ser 
Vivido.

Nós iremos até o fim.
Nenhuma força 
Sobre a face da Terra,
Irá nos deter.

Nenhum mecanismo 
De controle, irá nos
Controlar, 

Não seremos
Contidos, ninguém irá 
Nos conter.

Nós iremos, 
Meus caros,
Até o fim. 

Mas não hoje.
Hoje, apenas termine
Esta leitura breve
E a interprete,
Da maneira que lhe convier.

21/05/26







Gigantografia 

a infinitude não se mede
com uma trena.
uma de nove letras,
a outra de apenas seis.

porque a palavra "minúscula"
tem mais conteúdo,
que a palavra "imensa"?!

a beleza real da vida,
está nos detalhes 
microscópicos que passam
por nós,

enquanto 
nos distraímos,
com os 

LETREIROS 
LUMINOSOS E 
OUTDOORS.

24/05/26









O UNIVERSO cabe 
num micropoema?

- Ele já coube.

24/05/26










Com quantas palavras 
se faz um poeta?

Meu menor poema,
Ainda é "O Maior Poema do Mundo".
Pois: O Maior Poema do Mundo,
É um blefe

24/05/26







As Questionadoras Aventuras do Homem-Solução

Despertei neste dia
Com todas as resoluções,
Quando na verdade 
Não queria mais saber
Das respostas ou perguntas.

O que eu realmente 
Queria, era desaprender
Tudo o que aprendi até aqui.
Desprender-me de todo
Conhecimento, desapegar-me

Dos aprendizados que
Armazenei, neste compartimento
Sobrecarregado de ditames
E dizeres, que não me dizem
Respeito, que não me dizem mais nada.

24/05/26





Bunker Premium

Com a trilha sonora
De gritos desesperados,
O pânico é um
Poderoso recurso técnico.

Mas no final,
É o silêncio 
Que mais nos assombra.

Todas as latas 
Empilhadas com zelo,
Impregnadas de ferrugem,
Mas sem prazo de validade.

O ilimitado acesso
A desinformação,
Hipertrofiou nosso pavor.

Os fundos de investimento 
Valeram a pena,
Compramos os ingressos 

Mais caros,
[Brindes inclusos]
Para assistir ao Armageddon 
De camarote.

E que bela desolação,
O fim de tudo 
Nos proporciona.

31/05/26






Não moveremos uma maldita palha

Sei que ela não tem
A ver com isso,
E sabendo que a revolta
Pela revolta e a rebeldia
Sem causa, promovem mais danos
Que benfeitorias,
Apenas assumo a posição 
De interventor da nulidade,
Prometendo à todos que se
Dispõem em perder seu
Próprio tempo, para ouvir
O sermão infértil das ladainhas, 
Divorciadas de qualquer ação. 
As justificativas vazias
São mais fortes do que
Nossa vontade de se controlar.
Está aí a magnânima missão sacerdotal,
Dispararmos promessas 
Ao vento, que jamais poderemos 
Cumprir.

25/06/26





As Contraditórias Aventuras do Homem-Paradoxo

Lá vinha ele
Pisando em falso,
Novamente.
Eram mais do que reais
Os teus tropeços.

Alguns chamariam
De hiperrealismo,
O que se passava com ele,
Outros ainda
De um realismo fantástico.

Eram escorregadas doloridas,
Decididas, dignas
De registro e pena.
Mas o lamento 

Usado sem moderação, 
Não acelera de fato,
A cicatrização 
Dos hematomas.

Dúbio e duvidoso,
Ele não sabia explicar 
A si mesmo,
Porque não amava
Em mútua intensidade,

Quem com tanto
Zelo e préstimo,
O havia amado
Profundamente.

O homem que se contrapunha
Às tuas próprias razões,
Só podia em tua 
Limitada capacidade 
De compreender-se,

Amar àqueles que
Nenhum afeto lhe puderam
Conceder.

08/07/26






Estrofe de um Fóton 

Quem tem que se preocupar 
Com as coisas,
É quem tem um monte
De coisas para se preocupar.

15/07/26






Personificação Adorável de um Pensamento Aterrorizante 

Ao menos isso
posso te prometer,
Não escreverei nada daquilo 
Que você quer ler.

Estamos todos mortos 
Por dentro,
Apesar de cantarolarmos 
Alegremente.

Permanecemos mortos
Por dentro, 
Sapiens incipientes...

Todo o brilho das telas
Velozes, interações programadas
Em relações dissolventes.

Ambientes controlados 
E um ar poluente, 
Competências sócio-emocionais
Arremessadas a esmo,
Nada foi suficiente.

Numa escala de zero à dez
Algum número negativo,
Em descarga crescente.

Outra geração posterior 
Aos nascidos póstumos,
Caminhantes vacilando, 

Como embriões caducos 
E velhos principiantes,
Na espetacular iminência 
Do pós-fim.

Permaneceremos mortos
Por dentro, 
Ainda que nadando 
Contra a corrente ?!

Enquanto não diluímos 
Nenhuma questão permanente,
Seguimos cantarolando,

[Arrogantes-atordoados]
Defumados e enfeitados
Nesta formosa farsa contente.

25/07/26






Ducha gelada na madrugada infernal 

Para minha tragédia pessoal,
Fui consagrado
Com a mais audaciosa 
E marginalizada,

Vertente 
Da 
Literatura.

O mais estimável e desprezível 
Segmento, sobre o qual
Se pode expressar.

Outrora, monumental 
Apoteose dos adoradores 
E adorados,

Tratada com descaso
E desdém, nos tempos 
De agora.

A 
Poesia.

Em tua sacralidade,
Um ramo absolutamente 
Profano, subversivo e transgressor 
Do espírito humano.

29/07/26





Está Lido 

A poesia é isso. A capacidade 
Incomensurável de dizer [escandalosamente] tudo,
Sobre qualquer coisa.
Ou ainda, dizer qualquer coisa 
[mesmo que discreta]
Sobre tudo.

05/08/26







Poesia de Combate 

Dispositivo pontiagudo 
Capaz de armazenar tinta 
De cores ecléticas.

Ao poeta combativo
Serve à dois propósitos 
Bem definidos,

Registrar poemas marginais,
Em tom de manifesto,
Para guerrilha urbana.

Ou ainda, realizar uma ação 
Em dois movimentos específicos 
[Diante de uma necessidade 

Explícita], atravessando o globo
Ocular de um fascista, seguindo
Para perfuração da jugular.

08/08/26


 




Neurodivergindo

Foi no exato momento,
Em que um hiperativo 
Dirigiu-se ao outro,

Antes que o déficit 
O alcançasse,
Num milissegundo
De hiperfoco, bradou:

Ouça-me com atenção!!
E se eu te dissesse,
Que não faço a menor ideia 

Do que você tá falando, porra.
Você acreditaria em mim ?!

Instantaneamente aquele
À quem foram dirigidas 
Tais rudezas, replicou:
Tá falando comigo?!

09/08/26






Trajetória de um Espirro

Atchim (Saúde!) Amém.
Com ou sem secreção,
Sempre uma boa forma
De interação social.

09/08/26






Goteira 

Escoavam velozes
No início,
Insistentes 
Escorriam, 

Assoalho 
Encharcado,
O ralo paciencioso,
Teu destino.

Tal era o relapso, que
As próprias gotas
Contraquicavam.

E continuariam a cair,
Enquanto a nuvem 
Não encontrasse 
Fadiga.

Cada gota no seu tempo,
Algumas 
Mais lentas, 

Tão lentas,
Que o eco da tua solidão 
Chegava antes delas.

10/08/26







Final Preguiçoso de um Poema Clichê

Originada dos devaneios,
Que nem sequer os próprios anjos
Ousaram imaginar.

Vindo à tona nos poemas
Absurdos, rascunhados em meio
Às madrugadas despertas.

Ela, se fez presente 
Em todos os pensamentos 
Perdidos,

Que nalgum momento, 
Me atrevi a pensar.

10/08/26





Pequeno Estrondo num Feixe de Estragos

Quando um espírito atormentado,
Se encontra longe
Da linha de frente,

Só lhe restam duas alternativas,
Declarar guerra
À tudo que cruza seu caminho,

Ou travar as batalhas,
Por mais sanguinolentas que sejam,
Contra si mesmo.

11/08/26






Gonnifers 

Criações 
Poéticas soltas,
Cada qual com teu singular

Ainda 
Que a diversidade 
Surja (in)escapável dos plurais

Regra
Não há nenhuma,
Pode ter rima ou não pode

Pode
Ter métrica ou
Nada a medir senão a doçura

Pode conter 
Amargura, mas 
Na crítica e contestação se realiza

Apesar 
De ter sido escrita 
Em tercetos, qualquer forma
                                         pode
                                                  tomar.

12/08/26






Que o último babaca apague a luz 

Em Eras passadas
Travaram-se disputas ferozes,
Nos campos devastados
Da moralidade.

[Obtuso 
É outra palavra
Para palerma]

Muitos princípios foram
Defendidos à luz do dia,
Enquanto eram esmigalhados
Nas sombras.

Um ciclo vicioso e ininterrupto,
Se arrastando no decorrer 
Dos milênios, que nos anestesiaram 
Nas águas agitadas da caudalosa
Hipocrisia.

[Mentecapto 
É outra palavra 
Para imbecil]

- Todavia, evoluímos.
Como toda criatura viva, que está 
Condenada a ver transformada
Tua própria condição.

Hoje, não vejo nenhum problema 
Em ser completamente 
Consumido, pelos meus 
Mais patéticos desejos 
E obsessões.

13/08/26





Dispositivo de Dissuasão 

Os parasitas não possuem 
A capacidade para 
Exercer poesia

E identificando seu potencial 
Ilimitado, se dedicam 
A persegui-la
E censurá-la.

Uma arma de destruição 
Em massa das ideias
Nefastas,

Calibrada para abater
Toda ordem de misérias,
Num único disparo.

A poesia é o poderoso 
Instrumento de confronto,
Uma tecnologia 
De libertação

A serviço dos escorraçados,
Explorados e oprimidos. 

13/08/26





Ace

Caminhou até mim,
A portadora da frustração, 
Um homúnculo vil pisando firme.

É óbvio, que eu gostaria
De perder mais uma hora da minha
Vida preciosa, realizando 
Outra tarefa inútil.

Revisá-lo-ia, aquele documento 
Desnecessário, sem serventia,
Que ninguém em sã consciência
Leria, ou sequer iria conferir.

Saí da sala, capturado por um
Ruído longínquo, que flutuava
Pelos corredores.

Era o som da humanidade acontecendo,
Sendo e existindo da maneira
Mais humana que poderia, em qualquer 
Período ser e existir.

Entrei no meio do jogo, a quadra fervia 
A uns trezentos graus celsius
E o próximo saque, era meu (...)

14/08/26






Outra incursão à Terra-do-Foda-se

A arte 
Não serve 
Para nada.

Este é justamente 
Seu propósito 
Sagrado.

Fazer frente 
Ao utilitarismo 
E substituí-lo 
Por algo muito mais
Elementar,

Que antecede 
As ferramentas,
Anterior às próprias 
Necessidades, 

Sem uma definição 
Apropriada
E que não pode 
Ser nomeado.

A poesia 
É uma feitura
Destituída 
De qualquer utilidade,

Sem a qual 
Jamais, em nenhuma
Circunstância, pude viver.

15/08/26







De volta ao fundo do poço dos desejos 

Experiências tão extraordinárias,
Que se perdem tão facilmente 
Em meio às rotinas saturadas.

Conviver lado a lado,
Com as criaturas mais repulsivas 
Que a literatura fantástica 
Jamais concebeu,
Não nos faz menos
Monstruosos.

Ainda que tenhamos 
A oportunidade de sermos
Vilões dignos dos quadrinhos,
Nunca nos enquadramos
Com folga e naturalidade,
Em moldes pré-concebidos
De asneiras.

Somos bons mesmo
Em criar nossas próprias
Atmosferas sufocantes,
Terraformando realidades 
Horrorosas, enquanto 
Improvisamos roteiros 
Vulgares, com falas carregadas
De termos autodepreciativos.

O que seria do karma,
Se eu recusasse 
Pela septuagésima sétima vez
Meu destino.

15/08/26






Codinome: Michel F.M. 
(ou os diferentes rótulos 
de um âmago indefinível) 

apanhador de versos
no mangue das rimas,
inventeiro vertiginoso 
de lugarejos acantonados.

contorcionista entediado,
um trapezista hilário,
teu tristonho palhaço.

sujeito insubordinado,
perito em contradições,
o próprio pacífico em brasas,
mestre dos pretextos.

acumulador de feitos invisíveis,
guardião das flores do pântano,
arquiteto da expectativa. 

o colecionador de vácuos,
contestador por formação, 
comunicador por opção 
e rimante por acidente.

15/08/26






Café com Kafka sem adoçante 

nós existimos 
em tempos distintos, 
vivemos em séculos 
diferentes,

mas paira aquela sensação,
como se nos tivéssemos 
conhecido intimamente, 
como se fôssemos 
confidentes. 

num certo ponto, Kafka disse,
que há muita esperança 
no mundo, só não para nós.

mas ainda 
que os dias pesem
mil toneladas

e no cair
da noite, pareçam 
desesperançosos,

de um vigor despedaçado,
parece que tenho o costume 
irritante, de esperar por algo,

toda manhã, 
como a boneca 
de Kafka,

que viajou o mundo,
só para confortar uma lágrima.

viajamos buscando por algo,
que ousamos denominar
esperança 

e esperamos que a busca
nos baste, no alcance de
todo amanhã.

16/08/26







Manguito Rotador 

Aquele ombro zuado,
Fodido e cansado,
Carregou tanto peso,
Suportou tamanha 
Sobrecarga de angústias,
Que nenhum exercício 
Resistido foi suficiente 
Para impedir a lesão,
No levantamento 
Das frustrações.
Para o rompimento 
Total da alma, não existe 
Reabilitação.

16/08/26






Desabafo de um Protetor Auricular 

Na profusão de perguntas 
Destituídas de resposta,
Mesmo com grande esforço,

Ele nunca compreendeu,
Porque algumas pessoas 
Odeiam tanto o silêncio.

Para alguns indivíduos,
A vida só se estabelece 
Através do ruído contínuo.

No excesso de estímulos 
Sonoros e visuais,
Asfixiando toda clareza.

Na violência de um ambiente 
Sobrecarregado, retirando
De nós a possibilidade, 

De estabelecermos uma relação 
De mínima afinidade, com nossos
Próprios pensamentos.

16/08/26





Fracasso de um Limerique 

Estruturado em uma quintilha, 
Cada qual um espaço na pilha,
Ele não pôde prever
E nem pararia pra ler,
Aquele ousado quinto verso sem rimar.

17/08/26






Emudescência: Capítulo 2

sou um grande entusiasta 
do silêncio,
admiro profundamente 
pessoas que tendo
a oportunidade para
falar merda,
silenciam.

18/08/26






Astrolábio

apesar de nosso vasto repertório, 
ser composto por sugestões 
das mais adversas procedências,

numa passageira certeza,
podemos despretensiosamente 
nos ancorar.

não somos sugestionáveis,
jamais nos deixamos levar.
assumimos o timão desde

o princípio e para a alvorada
navegaremos, até que a aurora 
se torne crepúsculo.

19/08/26






Do que se trata?!

Imagine um orador
Que não discurse,
Ou um poema que não fale
De amor,

Nem de esperança ou desilusão.
Imagine a poesia 
Servindo pra alguma coisa,
Só pra variar.

Um trabalhador braçal 
Que se recuse a trabalhar,
Ou um burguês safado que ganhe
Seu sustento com o suor
Da própria face [talvez este verso
Tenha ido longe demais].

O cheiro que rescendia do ralo
Retirava a concentração,
Como um soco na porção 
Antro pilórica do estômago.

Após uma caneca transbordante 
De café puro e meia dúzia 
De bolachas murchas,

Ela podia se sentar calmamente 
E pela primeira vez no dia,
Dedicar-se à sua própria 
Respiração.

Imagine um inventor 
Que não crie nada,
Ou um criador que não invente
Coisa alguma.

20/08/26







Curva extremamente 
acentuada à esquerda 

a forma 
mais efetiva 
de luta corporal 
contra a 
auto-destruição 

ou 
desmantelamento 
da própria existência.

20/08/26





Quando tudo era outono para nós 

O pôr do sol 
Não me interessa, 
Nem o primeiro raio da manhã,
Agora, já é tarde.

Não quero ouvir os
Pássaros cantando
[detesto teu empenho],
Ou sentir o aroma perfumado
Das roseiras.

Perfumem, longe de mim.
Tudo o que sinto 
São espinhos, dilacerando 
Minha carne por dentro.

Apesar do inverno crescente,
É no outono que as flores
Morrem. 

Apodrecidas,
Todas as folhas 
Já secaram em nós.

Não há poesia aqui,
Só há cortisol.
Um fluxo caudaloso 
Desta ira incontida...

E a certeza de que o ódio 
Nos move tão violentamente,
Quanto o amor.

28/08/26







Diástole 

Alguns desejam viajar 
Pelo mundo,
Outros desejam casa e carro

Próprios e a quitação 
De todas as parcelas dos
Empréstimos.

Há aqueles 
Que querem outro
Importado, 

Em sua coleção 
Tão importante. 

Ou milhões de seguidores 
Para vê-los fazer, seja lá 
O que fazem.

Entre os que desejam 
Colonizar a galáxia e aqueles
Que só querem algo pra comer,

Estamos nós, 
Desejando ser gentis
Uma última vez,

Uns com os outros,
Se é que ainda podemos.

29/08/26






Sístole 

Sendo ela uma velocista nata,
Uma atleta de alta
Performance,
Obviamente que
A felicidade é veloz demais 
Para mim.

Mesmo com o treinamento 
Aeróbio adequado,
Ela sempre correu mais rápido, 
Do que minha capacidade 
Cardiorrespiratória,
Para alcançá-la.

29/08/26






Caso precise, não me procure

quem convive 
muito tempo com os cactos, 

pode acabar se 
apaixonando pelos espinhos.

ou na melhor 
das hipóteses, 
sair perfurando tudo que toca.

29/08/26





Estética do Estilhaço 

quem convive 
muito tempo com os cacos,
acaba fazendo da própria vida 
um mosaico.

29/08/28






{pseudo-poema-comprimido}

placebo da arte,
fruto da desmotivação,
{não serve} para inspirar,
nem serve de
inspiração.

daqui pra frente não rima,
e todo avanço {é um} passo atrás.

desmetrificado 
e desrespeitoso com o
academicismo.

nossos erros são grifados
de propósito, os sublinhamos
e destacamos em negrito,
exigimos nossa TOSQUICE 
em caixa alta.

erramos também na pretenÇão.
desprezador dos críticos e
juízes de valor {emplumados charlatões},
ode brilhosa ao incômodo, 
encenando despretensiosos. 

apesar de {não} querer nada
com isso, leva ainda muito a sério,
teu intuito de querer transmitir 
mensagem nenhuma,
seja ela qual {quando e onde} for.

29/08/26





(Poema entre Parênteses)

Quis, é verdade 
(por muito tempo),
Dizer algo que fosse relevante.

Mesmo que não dito
(explicitamente),
Escrito em palavras simplistas,

Para que (numa vã intenção)
Chegasse ao maior número 
De leitores, ouvintes, viventes,

Ou mesmo algum tordoado,
Que tropeçando ao acaso
(em dizeres inesperados como este),

Se achasse diante de uma
Revelação, que mostrasse
Algo nas entrelinhas,

(fosse implícito ou subliminar)
Trazendo uma consideração 
Qualquer, impossível em sã 
Consciência, passar despercebida 
(ou se recusar).

29/08/26




Cloroquina Lover 

Bolsa de bosta,
Cabide de emprego,
Flexão de pescoço.

Cargo fantasma,
Aposentado aos trinta 
E três por terrorismo,
Com todas as honras.

Golpista de estimação,
Doente mental apto e inelegível,
Colecionador de crimes 
Contra a humanidade.

Mentiroso compulsivo,
Idiota nojento e convicto,
Bastião da disfunção erétil 
Com histórico fake de atleta.

Vira-lata sarnento do tio sam,
Vinte e sete anos e meio 
De reclusão.

29/08/26







A Casinha Colorida 

Ela me entregou um cartão,
Com o contorno de uma
Pequena casa,

Me pediu para pintá-la,
Abrindo uma caixa
Cheia de canetinhas.

Quando terminei,
Perguntou-me porquê 
Cores tão vívidas.

Eu não tinha uma
Resposta concreta,
Uma justificativa convincente.

Diante de minha tendência 
Habitual a olhar tudo
Com pessimismo 

E desespero, meu jeito 
Tão deprimente de observar 
Os acontecimentos.

Pelo menos aquela pequena 
Casa, contornada num cartão,
Poderia ser colorida 

E vibrante, alegre e chamativa,
Como a vida, em tua opulência 
Dolorida, jamais havia sido.

29/08/26



terça-feira, 16 de junho de 2026

Bruno Michel Ferraz Margoni (também conhecido pelo pseudônimo Michel F.M.) é um premiado escritor, poeta, músico, editor e professor brasileiro. Ele possui um amplo envolvimento na literatura contemporânea independente nacional e internacional.


Bruno Michel Ferraz Margoni (também conhecido pelo pseudônimo Michel F.M.) é um premiado escritor, poeta, músico, editor e professor brasileiro. Ele possui um amplo envolvimento na literatura contemporânea independente nacional e internacional. [1]

Carreira e Destaques

  • Atuação: É fundador da Editora Antologias Conectatum, criador do Projeto Movimentalize, idealizador do Prêmio de Literatura Coleção Opostos e atua como professor na rede pública de SP. [1]
  • Produção Literária: Autor de mais de 30 livros publicados, incluindo a Série Eclipse Vital e a Trilogia Coleção Opostos (Na Textura Sólida das Nuvens, Na Frieza do Magma e Amarga Doçura). Outras obras incluem Esplêndida Face Magnífica, Anatomia do Impulso e Atlas do Cosmos para Noites Nebulosas. [1]
  • Reconhecimentos: Membro vitalício da Academia Independente de Letras, laureado com a medalha Máximo Gorki e comendador pela Ordem Literária Scriptorium. [1]

Para aprofundar na biografia e na trajetória de Bruno Michel Ferraz Margoni (Salto, 13 de fevereiro de 1988), conhecido no meio literário pelo pseudônimo Michel F.M., é preciso compreender sua atuação multifacetada como escritor, editor independente, educador e acadêmico imortal. [1, 2, 3]

Abaixo estão os detalhes aprofundados sobre a sua formação, pilares literários e projetos de fomento cultural:

1. Origem e Formação Acadêmica Plural

Filho de ativistas sociais de Salto, interior de São Paulo, o autor construiu uma bagagem acadêmica extensa e diversificada para fundamentar seus escritos filosóficos e artísticos. Ele é graduado em cinco áreas distintas: [1, 2]
  • Comunicação Social (Publicidade e Propaganda).
  • História e Filosofia.
  • Artes Visuais e Educação Física.
  • Especializações: Possui pós-graduação em Psicologia aplicada à Educação Física e ao Desporto e em Metodologia do Ensino de Arte. Além disso, ingressou no programa de Mestrado Profissional em Educação Física pela UNESP. [1, 2]

2. Estilo Literário e Pseudônimo (Michel F.M.)

Ele começou a compor aos quinze anos de idade. Sob o pseudônimo Michel F.M., ele se autodefine de forma irônica como um "Perito em Contradições, Sujeito Insubordinado, Mestre dos Pretextos e Rimante por acidente". [1, 2]
  • Abordagem: Suas poesias e crônicas misturam existencialismo, filosofia cotidiana, críticas sociais e o lirismo das conexões humanas.
  • Trilogia de Destaque: A chamada Trilogia Mestre dos Pretextos sintetiza bem seu tom contestador. Ela é composta pelos livros Delírio Absoluto da Multidão Atônita, Pacífico em Brasas e Atlas do Cosmos para Noites Nebulosas. [1, 2]
  • Outras séries: O autor publicou compilações marcantes como Ensaio sobre a Distração (Vol. 1 e 2), Poesia Pandêmica e (des) Rimando. Suas obras integram o acervo de Literatura em Língua Lusófona da Biblioteca Nacional da França (BnF), tendo exposto trabalhos em Paris. [1, 2, 3]

3. Editora Antologias Conectatum e Fomento Literário

Como editor-chefe da Editora Antologias Conectatum, Bruno Margoni atua diretamente abrindo portas para novos talentos da literatura nacional. [1]
  • Antologias Coletivas: Ele projeta e organiza volumes que condensam poemas, contos e crônicas de centenas de autores contemporâneos independentes. [1]
  • Grandes Coletâneas: É o responsável direto pela organização da Série Eclipse Vital e da aclamada Trilogia Coleção Opostos (composta pelos livros Na Textura Sólida das Nuvens, Na Frieza do Magma e Amarga Doçura). [1]
  • Premiações: Através do Prêmio de Literatura Coleção Opostos e do Projeto Movimentalize, ele gerencia concursos literários que distribuem reconhecimentos e dão visibilidade a escritores que estão fora do circuito das grandes corporações editoriais. [1]

4. Honrarias e Sociedades Literárias

O impacto de sua produção e curadoria editorial rendeu posições de destaque no cenário de academias independentes: [1]
  • Imortalidade: É Membro Vitalício e Acadêmico Imortal da AIL (Academia Independente de Letras), onde ocupa a Cadeira 193 (batizada por ele de Conectatum). É também membro-fundador da Academia Intercontinental Sênior de Literatura e Arte (AISLA). [1, 2]
  • Medalhas: Foi condecorado com a prestigiada Medalha Máximo Gorki, recebeu a Comenda da Ordem Literária Scriptorium e o Título de Referência Literária no Prêmio Apontador: Evidências Literárias. [1]
  • Prêmio Jabuti: Já figurou como autor convidado em ações e painéis do tradicional Prêmio Jabuti. [1]

Atualmente, ele concilia a intensa rotina de publicações na plataforma Clube de Autores e UICLAP com o cargo efetivo de professor na rede pública de ensino do Estado de São Paulo. [1, 2]

quinta-feira, 21 de maio de 2026

Michel F.M. - Poemas 2026 - Parte 4


Michel F.M. - Criações 2026 - Parte 4

🍄 2026 🍄



Virtuoso (Projetado do Avesso)

era ele um exemplo 
do Não-Ser.
até que não seria 
tão ruim, 
se não fosse
tão péssimo. 

um acabamento 
mal feito de verdade,
um manifesto 
reverso da ostentação. 

nada menos que 
o cúmulo da ausência 
total de presteza. 

no acúmulo da
inabilidade que possuía, 
o indivíduo tornar-se-ia
neste ritmo em que vinha,

nulo. o próprio gênio invertido,
projetado do avesso, 
na contramão da maestria.

conquistado 
a duros deslizes,
o personalizado direito 
à inaptidão.

fosse esta veemente 
incompetência, 
adquirida 
ou congênita,

nos tropeços 
da hereditariedade,
moldar-se-iam 
teus dotes,
geração pior que geração.

como alguém 
pode possuir 
uma falta de noção 
tão grande
e desproporcional [??]

um enigma 
impenetrável 
diante da vista estupefata. 

na contemplação 
vacilante e desnorteada 
do observador, 

podia-se constatar 
o nível alarmante, 
de incredulidade 
e atordoamento. 

a transmissão em
larga escala da magnitude 
do desastre,
o nobre erro hiperbólico. 

uma performance
antológica, impossível 
de prever ou ignorar,
a excelência do descaso.

uma ópera orquestrada
ao vivo, pelo despreparo
da inépcia absoluta.

a saga brilhante 
da mediocridade
elevada ao cubo.

mas o relaxo extremo,
não é um campo de amadores.

como qualquer outra técnica, 
exige intencionalidade 
e precisão no desleixo.

que só pode ser alcançada, 
na reincidência obstinada
da repetição [com todas as
redundâncias], levando 

por conseguinte, ao 
aperfeiçoamento
de teu virtuosismo.

03/05/26
 






Desperta(dor)

após três bipes

Bip

Bip

Bip

os analgésicos 
começavam 
a perder seu
efeito

03/05/26






Torcicolo 

nem mesmo o rochedo 
mais sólido, apresentaria em teus
melhores dias,
tamanha concretude
estrutural.

um arcabouço 
geológico único,
fixado na base 
do crânio.

chamado pelos compêndios
anatômicos, 
em tuas intermináveis 
22 letras, de 
esternocleidomastóideo.

irradiava tua 
petrificação
também ao trapézio. 

mais rígido agora, que
as moléculas de grafeno
jamais foram.

Tra-va-daço.

para onde virasse,
era apenas
Clack,
        Clack
                e volta e meia, um Clock.

03/05/26







Desfibriladora 

tua descarga 
elétrica 
controlada, 

me trazia de volta
o sopro 
da vida.

em meio
àquele oceano
cinza 

e a fumaça 
rasante 
da esquadrilha.

nenhuma 
parada 
cardiorrespiratória 
súbita,

era pário 
para a
massagem cardíaca, 

que você 
representava.

03/05/26








Migração das Metáforas 

quando uma forma
incontrolável 
de concentração 
de energia, 

colide e desloca
sua força 
para o solo,

incendiando 
uma floresta 
inteira, 

a partir de 
uma faísca,
chamamos 
este evento 
de catástrofe 
natural.

quando uma forma 
incontrolável 
de concentração 
de energia, 

colide e desloca
sua força 
para o papel,

incendiando 
uma tradição 
inteira, 

a partir de 
uma faísca,
chamamos 
este evento 
de poema em 
versos libertos.

e a poesia de 
combate, 
uma vez liberta,
levará à aniquilação 
e à concepção,
universos 
inteiros.

06/05/26







Autoconcepção de um Indivíduo Coletivo 

nenhum verso 
nasce livre,
ele precisa ser libertado.

e não será 
liberto senão, 
por tuas próprias mãos.

depois de iniciada,
a autolapidação 
manifesta-se de maneira 
imparável.

exige planejamento,
mas nem tanto,
do que realmente 
necessita é emergência 
e intencionalidade.

a cada martelada,
pedaços consideráveis 
de nosso eu,
se espatifam 
contra o chão,

no tango 
encantador 
da gravidade.

dois amantes 
em fluidez,
sincronizando, 

cada qual com 
tuas singularidades.
traga também 
as neuroses,

até nossas
falhas ocorrem 
em sincronia.

ao ponto de não mais,
ser o poeta 
quem escreve.

[vê-lo-ás aqui,
nu em pêlo].

ei-lo agora,
escrito e gerado, 
por tua própria 
poesia.

07/05/26







Prova de Vida

no formulário, 
constavam os dados
todos.

completos,
integrais, preenchidos,
com toda a informação,
digna de ser 
armazenada,

em todos os seus caracteres
e computada 
pelos múltiplos 
algoritmos, 

que fariam a leitura
detalhada, de cada um 
dos detalhes 

milimétricos, 
com os pormenores nos 
campos que esquadrinharam 
teu perfil.

sua saúde porém, 
andava péssima.

não vinha se medicando 
conforme psiquiatra 
e cardiologista 
haviam recomendado.

uma dieta horrorosa,
não se recordava quando
exatamente, havia dormido 
pela última vez.

a respiração 
ofegante, ronquidão 
severa na garganta, aquela
pressão no peito
persistente,

as pálpebras saltitavam 
sozinhas, frenéticas.
ele não se sentia nada bem, 
há muito, 
muito tempo.

07/05/26







Aos Inaptos, desprovidos de qualquer talento

dedicam canções 
aos talentosos,
dedicam filmes, 
longa-metragens

que ganham oscars, 
globos de ouro, baftas,
prêmios em cannes. 

dedicam
livros aos talentosos,
para contar
suas proezas

e estes livros 
também ganham
prêmios. 

quando adaptados 
para o cinema, 
os protagonistas 
também se consagram, 

após interpretarem 
personagens,
inspirados em 
pessoas talentosas.

[o nobel
foi um cara muito 
importante. li em algum 
lugar que ele inventou
a dinamite. o que seria

do mundo sem a dinamite?
certamente, não teria morrido 
tanta gente de maneira tão 

violenta e muitos ainda
teriam seus membros 
intactos. mas tirando a parte
de todos os corpos mutilados,
o que importa 

é o que ele fez com o dinheiro, 
da patente das dinamites.
criou um prêmio com 

o próprio nome, para homenagear 
quem tivesse muito talento. 
esse cara era mesmo
talentoso].

foi assim que me
tornei poeta,
por um motivo 
completamente diferente 

de todos esses.
foi justamente 
por não ter talento algum.

a poesia não despreza ninguém,
ela é feita até para aqueles,
que como eu, nunca foram
bons em nada.

e para estas pessoas inaptas,
como eu, dedico
este poema.

07/05/26






Onze Mil Quilates 

um rubi gigantesco,
esta era a manchete 
nos jornais do mundo todo.

onze mil quilates.
diziam especialistas
que aquela pedra, era a mais
valiosa pedra, jamais vista.

valeria centenas de milhões 
de dólares nos leilões,
sendo exposta numa cúpula 
de vidro à prova de bala.

os magnatas já preparavam
suas reservas monetárias,
seria uma corrida desenfreada
para possuir aquela pedra avermelhada.

seu país de origem estava devastado
pela guerra civil, que durava décadas;
golpes de estado, miséria extrema, 

minas terrestres espalhadas a esmo,
como um garboso campo de girassóis, 
cortesia das grandes potências.

mas era a mais valiosa pedra,
jamais vista. num mundo onde
se encontram pedras por todos
os cantos e a vida não vale um puto.

09/05/26







Treze mil novecentos e sessenta e seis vezes zero 

Deveria ser extremamente
Desgastante, buscar o significado 
De qualquer termo, na época 
Dos dicionários analógicos.

E quando utilizo a ênfase no
Extremo, é ainda um eufemismo,
Ou seja, uma suavização da
Dificuldade, que de tão dificultosa,

Me faz desistir imediatamente,
Até mesmo de imaginar. Pois
O esforço hercúleo que exigiria,
Desmotiva e inibe qualquer um

Desta geração de desistentes.
Que já nascemos cansados, e a cada
Novo dia, nos é concedida outra
Calorosa oportunidade, para deixar

Pra lá e desistir. Talvez por termos
Acesso a todos os significados, de
Todos os termos, de todos os tempos,
Um dia formulados e deixados para

Que encontremos seu sentido, em 
segundos, numa pesquisa aleatória,
Que não esclarece nada e que não 
Leva a lugar nenhum. Talvez por isso

Os trabalhos de Hércules ou as
Pelejas icônicas de Perseu, não nos
Interessem e não mais nos fascinem.
Nadar a braças largadas, nesta cordilheira 

De pornografia e publicidade abrasiva,
Nas pilhas de lixo infinito para consumo 
Rápido, fazem as Quimeras e os Krakens
Soarem, como uma liquidação de black
Friday, num shopping de quinta categoria.

10/05/26

 






Depósito de Caixas

nelas se encontravam 
cartuchos 
de formatura 

e álbuns 
de casamento,
panelas, talheres, 

eletrodomésticos,
fotografias antigas, 
amareladas,

onde os instantes 
capturados,
sugeriram cenas 

e situações tão 
familiares, de pessoas 
desconhecidas

para nós, 
mas tão importantes 
para alguém. 

estavam concentrados 
ali, na colméia de memórias, 
onde cada um dos favos, 

despertava
espasmos faciais 
e gotas que escorrem 

pelas bochechas, 
de vez em quando.
evocavam risos e suas

evoluções 
para gargalhadas.
traziam de volta 

até mesmo os
suspiros profundos, 
que nem as alergias,

rinites, sinusites 
e asmas, podem
evitar.

10/05/26





Equimoses

Causadas geralmente 
Pelas trombadas 
Cotidianas,

Nas quais os interesses 
De um, são incompatíveis 
Com os do outro.

Por serem superficiais,
As manchas arroxeadas
Desaparecem, em
Questão de dias,

Deixando apenas o
Desconforto, de ter que 
Olhar para as mesmas 
Caras, o resto do ano.

10/05/26





Hematomas

Causados geralmente 
Por pancadas
Violentas,

Nas quais os objetivos 
De um, são incompatíveis 
Com os do outro.

Por serem traumáticas,
As escoriações exibidas 
Nem sempre refletem, 
A real condição,

Que pode ser muito pior
Do que parece, e a porção 
Invisível pode resultar, num
Acúmulo severo de acidez,
Liberado nas pausas pro café.

10/05/26








Ignore o mastodonte na sala

O que faz as pessoas 
Disfarçarem suas reais opiniões,
São os costumes, a etiqueta,
Cortesia, ou apenas a velha
E gasta dissimulação?! 

O fingimento é uma habilidade 
Crucial, para sobrevivência 
Em ambientes sociais hostis.

As mentiras adornam cada 
Um dos espaços e aspectos,
da convivência contemporânea. 

A conivência em disfarçar 
Temas e assuntos desconfortáveis,
Contornar tabus desagradáveis,

Perambular pelos redutos da
Falsidade, com tamanha destreza 
E habilidade, tornando o engodo
Tão satisfatoriamente natural,

Fez com que uma subclasse
Dos primatas qualquer, se tornasse a
Espécie dominante de um ecossistema,
Onde não possui nenhum trunfo
Ou atributo apropriado para tal.

10/05/26





Bloqueio Criativo 

Ele achava que era um poeta,
Pois havia escrito 
Muitos poemas.

Nem sempre com boas rimas
É verdade, muitas vezes 
Sem rima nenhuma.

Teus poemas também 
Não possuíam métrica, não 
Fazia nenhum sentido para ele

Contar sílabas, já que a forma
Nunca lhe chamou atenção.
Era o conteúdo que o atraia 
E deslumbrava teus pensamentos.

Por vezes eram musicais
Teus poemas, com ritmo e
Melodia. Eram levadas de dois
Acordes, três no máximo,

Com uma sonoridade acústica e
Melancólica, mas alguma coisa
Nos versos dispunha de vigor,
Numa pegada crua e visceral.

Ele realmente achava 
Que era um poeta.
Até conhecê-la e ficar,
Completamente sem palavras.

[Talvez tenha sido o silêncio,
Sua melhor composição].

10/05/26






Estrutura de um Poema Indestrutível 

----------------------------M----------------------------
|                                                                |
----------------------------A----------------------------
|                                                                |
----------------------------T-----------------------------
|                                                                |
----------------------------C----------------------------
|                                                                |
----------------------------H----------------------------
|                                                                |
----------------------------E----------------------------
|                                                                |
----------------------------N----------------------------
|                                                                |
----------------------------K----------------------------
|                                                                |
---------------------------- I ----------------------------
|                                                                |
----------------------------N----------------------------
|                                                                |
----------------------------H----------------------------
|                                                                |
----------------------------A----------------------------

10/05/26








Sobre a ver ou existir 

Já tinha passado.
E era lá no passado,
Que ele a encontrava.

Quando se esforçava, 
Também no futuro
Detalhes surgiam.

Mas no caso de
Imaginação, nada se 
Pode fazer, senão 

Imaginar. Então o
Presente sempre tão 
Consistente, era página

Oca, árida, deficitária de
Letras e mensagem,
Sem estampa ou acento.

Por mais que garimpasse 
A possibilidade,
Por ali, já não havia.

Por mais que os olhos
Apertasse/forçasse,
Por ali, já não a via.

Apesar disso, ele era
E estava. E justamente por isso,
Persistia, mesmo sem porquê.

11/05/26






Confidência bombástica da cor furtada 

Esta incompreensível 
Condição, era tua qualidade 
Mais marcante e atraente.

A luz, tão fria no dia
E na noite tão quente, ditava
O ritmo, definia o tom.

Raríssimos sons nos 
Comoviam, como aquela
Voz rouca, que sumia
Ao final das sílabas.

Era o posfácio da força,
Que a um punhado 
Se esvaíra. Tua paleta 
Rotativa exibia-se em contrastes.

Transmutando cristais 
Incandescentes, jóias inusitadas
Em abundância, faziam
Da raridade uma estante 
Banal. 

Era a própria essência da Íris 
Em teu arco, chamada agora
De iridescência.

Sobre o que era, não sabíamos,
A quem se destinava,
Não mais supúnhamos.

E aquela exótica e esquisita 
Figura, que perambulava num
Tênis barato e remendado,

Nesta materialização translúcida, 
Era em si, ela mesma, 
Furtiva, a desaparecida furta-cor.

12/05/26







Genealogia do Tédio 

Se fosse só morrer pela revolução,
Pela revolução
Eu morreria.

Se fosse só viver por amor,
Por amor
Eu feliz viveria.

Mas o inferno 
Consiste na rotina,
Aquela reincidente rotina
De um replicado, 
Suplicante.

Que se repete, 
A cópia da cópia,
Sem morte, nem revolução,
Só sacrifício.

Aquela rotina, 
Que se repete
Sem reciclagem, 
De sacanagem,

Onde não vivemos
Felizes por amor,
Onde todo fim parece início.

É na rotina 
A rota de colisão,
Nos arrastamos 
Rotos, onde

Todo recomeço 
Parece o fim.
E o que diabos se fez, da paixão?!

12/05/26








Refresco

aos olhos do douto
- em tua mobília 
entalhada, de nobre
procedência -

o tolo
diz errado, 
faz errado,
errado-pensa.

chuchando 
café coa cuié,
o tolo nem do douto sabe.

ele arrasta 
um toco pra sentar,
provando sem querer
quem é esperto.

decasca uma laranja,
- cheia do bão cardo -
proseia um bocado
e vive pelo certo.

13/05/26









Fórmula do Indefinível 

O amor é tudo aquilo 
Que o poeta omitiu.
E indefinidamente mais.

13/05/26





 

O Vale das Sombras foi meu Bosque Encantado  

Pense em todas as coisas 
Insuportáveis, que em nenhuma 
Situação normal você aceitaria
E não aceite.

Nós atravessaremos esse deserto 
Interminável de sujeição,
Não acataremos mais, chega
De obediência.

Não haverá rendição também,
E esta será nossa nova diretriz.
Desobedientes, insolentes,
Inconformados e sem rendição.

Até a próxima obrigação,
Obrigatória.

13/05/26







Kamikaze 

Mirou a ponta do nariz 
No parabrisa, e após 
Um instante de suspensão 
Da própria consciência,
Se atirou contra o vidro.
Ela o encarou assustada.
O vidro não se partiu,
A cara dele não se partiu,
Foi uma visão menos
Emocionante do que
Ridícula. Mas o amor
É assim, um misto de
Bravura e idiotice em
Grande porção, mesmo
Que ninguém saia ferido.

13/05/26






Fórmula do Indivisível 

Desconsidere numerador 
E denominador,
Retire quociente,
Dividendo, resto
E divisor.

Daquele entrelaçamento 
Em diante, 
Só ficará o todo.
E nada além, para
Fracionar.

14/05/26







No meio do caos havíamos nós 

Toda minha vida 
Eu evitei o conflito,
Em todas as situações 
Profissionais, pessoais,
Amorosas.

Fiz sempre o possível,
Para me manter longe
Do conflito.

Trilhando pacificamente, 
A doutrina apaziguada
De um singelo pacifista.

Mas esse desgraçado
Persistente,
Insiste em me encontrar.

E quando topamos
Nos becos escuros do acaso,
Ele rosnando, 

Eu me aquecendo,
Nenhum de nós sabe, 
Como vai acabar.

14/05/26






O Procrastinador 

ele se permitiu 
um adiamento.
estabeleceu 
por conta própria 
uma prorrogação.

depois dos
acréscimos 
que se seguiram,
ao prazo já 
encerrado.

de todas aquelas
datas, que vinham
sendo sucessivamente 
postergadas.

era aquele contrato 
que tinha consigo 
mesmo, que importava.

era uma questão 
clara de
prioridades, 

que ele deixaria
sem a menor 
cerimônia, passar.

14/05/26







A Saga dos Mil Poemas

mil anos, formam
a extensão de
um milênio.

uma tonelada,
advém de mil
quilogramas emaranhados. 

e o quilômetro 
é a reunião de mil metros,
ao resolverem 
confraternizar.

quando mil litros 
se organizam, estamos
diante de metros cúbicos.

já este poeta,
é a aglomeração 
de mil poemas [até aqui], 
decididos a se manifestar.

enquanto 
mil centavos parece pouco,
em matéria de poesia,
é toda uma vida.

14/05/26 
poema n⁰1000










Trajetória de uma vida plena

Difícil de conceber,
Alguém com tais características 
Específicas. Mas é assim

Que foi. Ele fez tudo o que 
Queria fazer, mesmo quando
Contrariado. Realizou tudo

O que desejava realizar,
Mesmo quando não-realizado.
Foi feliz em cada um dos 

Momentos, ainda que a
Felicidade em raríssimas 
Ocasiões o tenha acompanhado.

Deixando-nos a seguinte 
Lição: não quantifique nada
Nesta vida. Não ordene os

Fenômenos, crescendo ou
Decrescendo, não condizem
Com o que representa o

Sopro da vida. Cada um dos 
Ladrilhos, por mais opacos
E desbocados que possam

Parecer, conferem o sentido 
Amplo, substancial e abstrato,
Coeso, contraditório e singular,
Ao que denominamos plenitude.

15/05/26






O Inesperado Regresso de Jou Boga

Violência gratuita e a cópula 
Bruta, trazem consigo 
Algum grau de semelhança.

No esfumaçado terror
De teus dias insanos,
Se fartou no sabor da vingança.

Direcionada sempre 
Aos inocentes, quem não 
Tinha culpa alguma, pagou 
Por tudo que não fez.

Após longas férias 
No xadrez de concreto,
Retornou como um rei
Mastigando as damas.

Modus operandi ativado 
De novo, o canalha vil 
disponível na pista.

Brigar e foder eram
Teus hobbies favoritos
Nas noites imprevistas.

Garrafadas a esmo, tatuagens 
Zoadas, cicatrizes suadas,
O veneno no sangue, 
A corrente gelada.

Uma cólera cega
Envelhecida em tonel,
Atrocidades destiladas.

A negligência enfim
Convertida em barbárie, 
Canonização do hediondo.

Especializando requintes
De crueldade, o homem crescido 
Despido das grades.

Prestigiem o monstro,
Regressando ao que ele
Nunca pôde deixar de ser.

Contemplem a criatura,
A besta desenjaulada,
Uma última vez em seu auge.

15/05/26



Michel F.M. - Criações 2026 - Parte 6

Michel F.M. - Criações 2026 - Parte 6 🛩️2026🛩️ Utopia em fiapos  só há uma coisa que eu queria, mas o que queremos,  no final ...