Michel F.M. - Criações 2026 - Parte 6
🛩️2026🛩️
Utopia em fiapos
só há uma coisa
que eu queria,
mas o que queremos,
no final das
contas
não importa.
ser mais solidário
hoje,
do que fui ontem.
nem que fosse
obrigado, a ser egoísta
comigo mesmo.
ser mais solidário
amanhã,
do que já fui um dia.
30/08/26
Desmundo em Três Atos
1º Ato - Libido Neoliberal
quando tá duro
é muito pequeno,
quando tá mole,
desapareceu.
2º Ato - Centrão
nem de direita
nem de esquerda,
no meio do olho
de um cu despregado.
3º Ato - Quarto Reich
quando nossas janelas
taparem de merda,
elegeremos a latrina
para nos salvar.
30/08/26
Melquisedeque
Apesar do nome bíblico,
Ele nunca havia lido
As sagradas escrituras.
Não conhecia seus
Capítulos ou versículos,
Nem os personagens
Tão famosos que
Atravessaram as eras.
Apesar do nome bíblico,
A única expectativa
Que ele mantinha,
Era de viver em paz.
Sem que nenhum cretino
Justificasse as mazelas
Da vida, como sendo
A vontade de Deus.
01/09/26
Se a vida te der pólvora
Mentiu para si mesma,
Enquanto atirava verdades
Na minha direção.
Uma saraivada após
A outra, sem pausa
Pra recarregar.
Não é sempre que
Se presencia, alguém
Tão motivado.
Eu particularmente,
Nunca havia presenciado
Tanta motivação,
Entre os lençóis.
[éramos muito bons
em foder, mas melhores
ainda em ferrar.]
Entretanto, acho que a colisão
E o estrago, oferecem
Um espetáculo mais
Grandioso que o romance
Convencional.
Você estava inteiramente
Equivocada, quando
Deixou claro, que eu não
Era nada para ti.
Eu fui teu grande erro
Cometido sem pensar,
Que se arrasta por uma
Vida de arrependimento;
E isso minha cara,
É alguma coisa.
02/09/26
363 graus
Olhaste ao redor
E não viste nada.
Olhei ao redor e não vi também.
De novo a sensação de inércia.
Estagnados na neblina
Turva, olhamos pros lados
Para atravessar, quando
O perigo estava abaixo de nós.
Tão bem nos esquecemos
De olhar para cima, quando
Era a retaguarda que nos
Preocupava.
Mas não se esqueça,
Daquela lembrança escorregadia,
Que virou-mexeu nos escapa
Pela memória franzina.
Apesar do futuro incerto
E das embaçadas suspeitas,
Do que possa ou não vir-a-ser,
Nós mudamos o mundo
Uma última vez,
Hoje mais cedo.
04/09/26
Especialista em Constrangimento
Não pense que tenho algo
Relevante a dizer.
Não pense que alguém tem.
Sou só um poeta qualquer,
Mão-de-obra barata do precariado
[inadequado e descartável],
Que torce o ócio, forçando até o limite,
Fazendo dele respingarem versos.
Mas o frenesi tem sempre
Mais a oferecer,
Do que o tédio da ociosidade.
Pena que o frenético
Não seja optativo, fazendo
Da balbúrdia nosso estado natural.
Sem pretensão alguma
De explicação,
Deixo que os equívocos
Se acumulem.
Fiz do incompreensível
Minha profissão
E aperfeiçoo-me
Em todas ocasiões que posso.
Escolho permanecer em silêncio,
Até que a ausência de respostas
Se torne insuportável.
Enquanto alguns insistem
Em dizer algo sobre tudo,
Outros nada tendo a dizer
À todos confundem,
Com tua chocante invisibilidade.
04/09/26
O sentido virá à tona
Às vezes um poema
É só um poema,
Por vezes uma rima
É só uma rima,
Não guardando em si
Nenhuma revelação
Surpreendente, nenhuma
Mensagem espiritual elevada.
Se ao menos por um flash
Instantâneo, não nos ocupássemos
De toda podridão que nos cerca,
Talvez sentíssemos em nossa
Pele abatida e desidratada,
Um último sopro da brisa primaveril.
Mesmo uma flor morta,
Caída-sêca-despetalada,
Ainda serve para adubar.
06/09/26
Amor Fati
Abraçar um cavalo açoitado
E pedir-lhe perdão
Pela humanidade,
É o único ato de sanidade,
Num mundo tomado
Pela loucura.
06/09/26
Miniaturas de Porcelana
Próximas demais
Da quina da mesa,
É sempre um risco
Deixar peças frágeis,
Desprotegidas por aí.
Delicadas e meigas,
Necessitam de zelo,
Exigem cuidado atencioso
E constante dedicação.
Eram três as pequenas
Miniaturas de porcelana,
Raridades feitas para
Um habitat seguro.
Esquecidas num quiosque
De praia, passavam
De colo em colo,
Em troca de um copo de açaí.
Como foi que moemos
A inocência?!
Quando foi que a partimos
Em mil pedaços?!
Então resta a pergunta final,
Quem poderá nos punir?!
E onde haverá castigo
Suficiente para todos nós?!
06/09/26
Revolta dos Fantoches
Por mais perspicaz
Que fosse o titereiro,
Nem mesmo uma única
Vez, supôs que tal ocorrência
Acontecesse em tua custódia.
Imediatamente após
O rompimento dos fios,
Que a aprisionavam no cenário,
A marionete correu, fugindo
Consciente, de tua trágica paródia.
E correu tão rápido, que ficou
Surpresa consigo mesma,
Ao descobrir que havia nela
Tamanha articulação.
Finalmente escolhia
Teu próprio movimento,
Um caminho que nunca
Imaginara trilhar e no meio
Da encruzilhada, encontrou-se
Diante deles, fugitivos silenciosos,
Bonecos de ventríloquo, velhos amigos
De jornada encarcerada, agora soltos,
Num mundo inteiro de possibilidades,
Só para liberdade deviam satisfação.
07/09/26
Sonho encontra o concreto
Especulando cada uma das ilusões,
Colhidas e peneiradas,
Estocadas no celeiro
De nossas suposições.
Quando saturado o armazenamento,
Uma parcela reciclada,
Outra descartada no
Acostamento das decepções.
Algumas poucas singulares que são,
Em tua singularidade
Nada mesmo convencional,
Encontram a profetizada realização.
Ainda que não mais seja um
Entusiasta das rimas e combinações,
Peço aqui perdão, aos leitores e à leitura,
Pois se fizeram elas necessárias,
E abundantemente enjoativas até então.
07/09/26
M de Manzoli
transcorria
todos os seus dias
em alerta,
constante estado
de vigília.
entendia tanto de história
quanto geografia, mas versava
com fluência entre filósofos,
sociólogos e antropologia.
tinha um coração enorme
e uma mão excelente
pra poesia.
ela amava mais os animais
que as pessoas.
ninguém poderia
culpá-la por isso.
e depois
de tudo que leu,
viu e viveu,
você concordaria.
08/09/26
Arranjo para Begônias
as palavras
eram de julgamento,
os olhares
de condenação,
mas nada se comparava
ao toque, truculento,
em tons que alternavam
entre vermelho vinho,
azulado e roxo escuro.
habituada aos
desprezos contínuos,
fazia dos sorrisos
tua arma letal.
alguns são
mesquinhos
e egoístas
de vez em quando,
outros são
a todo momento
e sem moderação.
desde muito cedo
foi iniciada na relação
violenta, onde os
desentendimentos
são sufocados
pela força.
ambiente cujo
o diálogo jamais
prosperou.
vivendo tanto nisso
que se afeiçoou à dor,
fazendo das cicatrizes
tuas melhores confidentes.
mas ela só queria,
o que todo mundo
quer.
alguém que pudesse
amá-la
como ela é,
alguém que
não arrancasse tudo dela
em troca disso.
mas neste poema
ela dita teus
termos,
na estrofe final
rompeu as correntes,
saiu pela frente,
refez tuas linhas
e experimentou a felicidade,
ao menos neste último verso.
09/09/26
Nano-romance
me equilibro com cautela
em teu sorriso,
uma ampla extensão
a se percorrer.
de uma margem à outra dos teus lábios,
vão se assentando
contrariedades,
com um elevado índice de
massa corpórea. mas nosso treino
vigoroso potencializa as alegrias,
numa rotina diária severa, que embala
séries e repetições,
ultrapassamos as debilidades
momentâneas, um intervalo
de cada vez.
em alguns casos particulares
são os gestos minúsculos,
do cotidiano despercebido,
que sustentam um amor
inteiro.
11/09/26
Jogo Rápido
Ele sacou um "eu te amo"
com efeito,
Num movimento rápido
E surpreendente,
Ela devolveu o "IDEM",
Bem na quina
Da mesa.
11/09/26
Tempo Fechado no atol das Ba-rrimas
Quando aquele furacão
Tropical de palavras,
Se viu diante
Do ciclone das reflexões,
Não restou-lhe outra alternativa,
Senão aquela velha
Proposta indecente:
Nem que as consequências
Derrubem toda prosa
Acumulada,
Vamos juntos
Inundar o mundo
De poesia.
12/09/26
O Despertador de Cthulhu
com todo esse mundaréu
que desaba lá fora,
só queria uma única coisa,
tá roncando agora.
12/09/26
Poesia-Vale-Tudo
Soquei três palavras chulas
Num verso sem pontuação
Estrofe imobilizada por estrangulamento
Desrima num fôlego [apagou]
Era nocaute técnico
12/09/26
Nunca aprendi usar a crase
Nem todo mundo aprende a ler,
Quem dera pudessem todos.
Aqueles que aprendem nem sempre
Interpretam, quem dera entendessem.
Aprendi muito com o xadrez,
Ele nos ensina o cálculo,
Mesmo nunca tendo aprendido
A calcular, nem decorado
A tabuada.
(depois de aprender as regras
é possível quebrá-las)
Quando aprendi o básico
Sobre malabarismo, mantive no ar
Ao menos três malabares.
E o equilíbrio veio da corda-bamba,
Que hoje chamamos de slackline,
Apesar de não serem a mesma coisa,
Nos proporcionam a mesma emoção.
Lutar contra a gravidade, me fascina.
Já falei sobre isso algumas vezes,
Só que a física nunca cai de moda.
[Então parei este poema
No meio, para apreciar o vôo
De um beija-flor, num vaso da varanda]
Voltando ao poema, podemos
Explorar muito sobre aprendizado,
Mas tudo o que deixamos de aprender,
Forma um paralelo de universos
Empanturrados do desconhecido.
Todavia em resumo, aquilo que
Chegou até nós e decidimos aplicar
Em nossas instantâneas existências
(ainda que escrevamos na forma inculta),
Nos faz suportar até mesmo
Todas essas normas gramaticais.
12/09/26
Fusão Poética de Cenários Banais
[As Prosaicas Aventuras de Poema Esquálido e Poeta Exaurido]
Destituído de todo e qualquer propósito
Ou significado superior,
Alguns poemas não vieram
Para dizer alguma coisa,
Alguns foram concebidos
Para dizer coisa nenhuma
Ou menos ainda.
Ocupar espaço na lauda,
Preencher o vazio com
Um desperdício insensato
De palavras tolas.
Uma obra sobre a mais pura
Ausência de acontecimentos,
Desgatilhos emocionais.
Coletando todo lixo dos aterros
Literários e descartando-os
Juntamente com os entulhos
Espaço-temporais, de nossa Era-Oca.
[As Horripilantes Aventuras de Poema Horrível e Poeta Exausto]
Dos amores avassaladores
Não restam resquícios,
Dos desastres aterradores e paralisantes
Nenhum sensacionalismo,
Para se converter em criação
Poética, com terminologias
Rebuscadas, que fazem o autor
Se passar por alguém, muito
Mais intelectual do que realmente é.
Alguns poemas são só
O exercício fútil, canalizado
Pelo péssimo hábito em produzir
Trovas contra si mesmo, de um poeta
Cansado demais, para
Dizer algo relevante.
13/09/26
Com quais assuntos se ocupam as borboletas?
Quem as observava ao longe,
Não poderia sequer especular,
Quais temas alimentavam tuas
Cambaleantes conversas.
Ao se aproximar de seu idioma
Incompreensível e destituído
De sonoridade, que não possuía
Sílabas ou articulação,
Apenas suas asas num esvoaçar
Persistente, emitiam um mínimo
Ruído, infinitesimal perto do
Som barulhento das ocorrências
Imensas, que se alastram
Mundo afora. Que assuntos
Podem interessar criaturas
Tão intrigantes, que fazem da vida
Esta dança descompromissada.
14/09/26
Sinfonia dos Maltrapilhos
Que reme
Enquanto lhe sobrarem forças,
Que rime quando não houver escolha.
- Faremos arte até o fim.
Aponte para o horizonte
E caminhe na direção daquele
Que se afasta a cada passo.
Jogue os dados na fogueira,
Pois a sorte nós fazemos.
Aos seres azarados não resta
Alternativa, senão cuspir
No prato da fortuna.
Que os maltrapilhos
E escalavrados façam do
Lamaçal teu templo de glórias.
E nos instantes derradeiros,
Quando tudo mirar pro
Inescapável recomeço,
Lembre-se de esquecer
O que não vale ser lembrado
E não se esqueça do primordial:
- Faremos da arte o nosso fim.
15/09/26
Poema-Relâmpago
Estava finalmente estraçalhado
Em mil pedaços meu coração,
Cada fragmento projetado
Numa trajetória diferente.
Mas o brilho cegante, não causou
Tanto espanto, quanto
O estrondo ensurdecedor.
18/09/26
Versenário
Nunca entendi nada sobre o amor.
Existe um senso-comum,
De que poetas são investigadores
Da alma humana e de tuas
Mazelas, é tudo besteira.
Não dominamos nenhum
Saber profundo e misterioso,
Que abarque as incertezas
Insuportáveis e contemple os
Segredos remotos de eras perdidas.
Nunca consegui expressar
O que sinto, mesmo tendo escrito
Milhares de poemas,
Nem sempre a prática
Leva à perfeição.
Talvez eu tenha errado na técnica,
Ou o conteúdo disso tudo,
Seja tão subjetivo, que nem mesmo
Os maiores desbravadores do
Abstrato, possuem as competências
Para concretizar, aquilo que já nasceu
Paradoxalmente, munido
De consistência e desprovido
De solidez, condenado a ser intocável.
19/09/26
Joanete e os Membros Inferiores
era ele
novamente,
chegando
sem aviso prévio,
o dolorido
formigamento,
tinha início
na ponta do hálux
e ia se alastrando,
percorrendo
todo metatarso,
para chegar
ao desavisado
calcâneo,
que latejaria
persistentemente
pela manhã,
a tarde inteira,
até o fim do dia.
20/09/26
Errantes e teus inúmeros feitos
então
com a voz meio
engasgada,
encarando o nada,
ela disse,
enquanto mastigava
alguma coisa:
isso foi
um grande erro.
em contrapartida
de maneira eloquente,
escorado no batente,
ele respondeu:
certamente,
este foi
um erro crasso,
de proporções
estupendas
e desdobramentos
radicalmente estúpidos.
e digo mais,
é provável
que tenha sido
ao mesmo tempo,
o maior e o pior
de todos os erros.
20/09/26
As Grudentas Aventuras do Senhor Limbo
Se esgueirando pela muralha
Do corredor, alastradas numa
Formação inviolável,
Avistavam-se as legiões
Esverdeadas.
Pouco mais concentradas
Num canto que noutro,
Sustentando toda aquela
Tinta descascada.
A previsão prometia
Algum resquício ensolarado
No fim da tarde,
A meteorologia mentira
Inescrupulosamente.
Seria mais uma semana
De borrascas torrenciais,
Onde já estava alagado
O nível aumentaria.
Era um reino ensopado,
Abarrotado de súditos
Implorando pela secura,
Que há muito havia abandonado
Aquelas colinas encharcadas.
Local onde o único soberano,
Era o próprio clima liquefeito
E ali, naquele brejo empapado,
Nenhum musgo que se preze
Ousaria desafiar-lhe.
21/09/26
Três Lunáticos uivando de costas para Lua
recortar um pedaço da noite estrelada,
emoldurando-a
numa parede
apática,
dum quarto vazio,
seria um belo gesto de admiração.
ao invés disso, oferecer numa
bandeja de prata,
uma fatia caprichada,
daquela orelha esquerda cansada
de ouvir tantas asneiras,
comprovam que o amor e a loucura
são as duas faces
da devoção.
como não sei pintar atirando
tinta na tela,
despejo todo meu desespero
no papel,
na forma de sentenças avulsas,
pois não tenho
paciência ou habilidade
para digerir as ideias que me
atormentam.
ao invés de criar uma nova corrente
da pintura de ação,
como faria Pollock e seus
demônios tão familiares,
abandono o gotejamento,
abraço forte a inundação
e me conforto em saber que ele fez
arte,
sóbrio ou severamente alterado,
até mesmo quando seu veículo
[clássico conversível] colidiu,
após um capotamento a centenas
de quilômetros, com aquela velha árvore
despreocupada,
usando teu espesso sangue
como tinta e o para-brisa como tela,
arremessado através da janela,
numa última e violenta criação.
22/09/26
O Sorriso de Schopenhauer
Voraz, teu pêndulo feroz,
Grande confidente das mentes
Debulhadas e servidas a tira-gosto.
Empilhe teus pleonasmos,
Seremos assim redundantes
Até expirar nossa validade,
Pendulando alegremente,
Num eixo (in)flexível.
De um lado a vida, como a certeza
Da derrota, do outro a morte
Em inesgotáveis possibilidades.
Tudo o que não éramos,
Antes de ser, tudo aquilo que não
Seremos depois de estar.
Melhor amigo das travessuras
Que Cronos nos impõe,
Agora que os deuses também
Se findaram, quem sabe nos reste
A concepção de nós mesmos.
Toda manhã que acorda vivo,
Deseja morrer.
Será que o dia em que amanhecer
Morto, estará ele sonhando
Com a vida?
23/09/26 - 06h23
♒2026♒
Uma última Balada para o Poeta-Imortal
Bons poetas são aqueles
Que escrevem belos poemas,
Inspiradores, emocionantes,
Reflexivos, questionadores.
Mas diferente destes,
Existe também, num
Canto perdido da poesia
Maldita, aquilo que se denominou
Na inconveniência do escândalo,
De poeta-imortal.
Em tua distorção genealógica
E monstruosidade genética,
Aquela entidade absurda,
Amplamente absorta e absorvida
Pelo estranhamento da poiésis,
Conquista tal patamar,
Na inevitabilidade da perseguição.
Poeta-Imortal é aquele que foi
Censurado, foragido, rejeitado,
Encarcerado, banido, envenenado,
E como se não bastasse,
Amaldiçoado por teus versos,
Condenado ao exílio e à pena
Capital, testemunhando tua
Própria obra consumida e incinerada,
Diante da multidão ensandecida,
Clamando por tua ruína
Com tamanho fervor,
Que restou-lhe apenas
A imortalidade.
23/09/26
Técnicas para se portar diante daquilo que trafega em ambas direções
Acordar às duas e dezoito
Da madrugada, para escrever
Poemas desconexos, não
Se configura um hábito
Saudável para nenhum rimante,
Que por ventura volte a ler
Tais impropriedades.
Desde muito cedo
É preciso impor
Alguns limites em certas
Relações. Jamais permiti,
Que determinadas ideias
Me acordassem
No meio da noite, para
Dizer seja lá o que elas
Queriam dizer.
Nunca deixe as incógnitas
Assumirem o controle,
Elas são autofágicas
E vão devorá--lo
De dentro pra fora.
De modo igual,
Não permita que as
Opiniões tomem muito
Fôlego, elas vem sendo
Infladas há um tempo
Considerável e vão carbonizá-lo
De fora pra dentro,
Sem nenhum arrependimento.
24/09/26 - 02h18
Ricochete
Processo eleitoral
Sujo e barulhento,
Abstinência recorde,
Brancos, nulos, inválidos,
Votação esmagadora,
Vitória incontestável.
Ninguém conhecia
Tuas propostas,
Mas pelos descalabros
Que reverberavam
Do palanque, o estrago
Já era garantido.
24/09/26
Inversamente Proporcional
É tudo tão ingrato na arte.
Enquanto minhas horas
De sono, pioram gradativamente,
Meus poemas tendem a melhorar.
24/09/26
Crônicas de um Anatomista
nunca
escrevi
poesia.
o que tenho feito
nos últimos vinte anos,
é narrar
meticulosamente
o embate corporal,
entre meu encéfalo
estressado
e a castigada
bomba cardíaca.
24/09/26
Morro dos Ventos Tisicos
Revirando o lixo
Me encontraste,
Radiante em meio
Ao fedor.
Diante destas seringas
Descartadas como
Testemunha,
Eu contrairia um vírus
Mortal qualquer por você,
Só para acompanhá-la
Pelo vale da sombra
Da morte.
Se isso não é amor,
Me diga em qual
Grau de esquizofrenia,
Em minha severa
Catatonia, eu enfim
Nesta sátira nefasta
Me enquadraria?
24/09/26
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