quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Michel F.M. - Criações 2026 - Parte 6


Michel F.M. - Criações 2026 - Parte 6

🛩️2026🛩️



Utopia em fiapos 

só há uma coisa
que eu queria,
mas o que queremos, 

no final das 
contas 
não importa.

ser mais solidário 
hoje,
do que fui ontem.

nem que fosse 
obrigado, a ser egoísta 
comigo mesmo.

ser mais solidário 
amanhã,
do que já fui um dia.

30/08/26






Desmundo em Três Atos

1º Ato - Libido Neoliberal 

quando tá duro 
é muito pequeno,
quando tá mole,
desapareceu.


2º Ato - Centrão 

nem de direita 
nem de esquerda,
no meio do olho
de um cu despregado.


3º Ato - Quarto Reich 

quando nossas janelas 
taparem de merda,
elegeremos a latrina
para nos salvar.

30/08/26






Melquisedeque 

Apesar do nome bíblico, 
Ele nunca havia lido
As sagradas escrituras.
Não conhecia seus
Capítulos ou versículos,
Nem os personagens 
Tão famosos que
Atravessaram as eras.

Apesar do nome bíblico,
A única expectativa 
Que ele mantinha,
Era de viver em paz.
Sem que nenhum cretino
Justificasse as mazelas
Da vida, como sendo 
A vontade de Deus.

01/09/26





Se a vida te der pólvora 

Mentiu para si mesma,
Enquanto atirava verdades
Na minha direção.

Uma saraivada após 
A outra, sem pausa
Pra recarregar.

Não é sempre que
Se presencia, alguém 
Tão motivado.

Eu particularmente,
Nunca havia presenciado 
Tanta motivação,
Entre os lençóis.

[éramos muito bons
em foder, mas melhores 
ainda em ferrar.]

Entretanto, acho que a colisão 
E o estrago, oferecem
Um espetáculo mais 
Grandioso que o romance 
Convencional.

Você estava inteiramente 
Equivocada, quando
Deixou claro, que eu não 
Era nada para ti.

Eu fui teu grande erro
Cometido sem pensar,
Que se arrasta por uma
Vida de arrependimento;
E isso minha cara,
É alguma coisa.

02/09/26





363 graus

Olhaste ao redor
E não viste nada.
Olhei ao redor e não vi também.

De novo a sensação de inércia.
Estagnados na neblina 
Turva, olhamos pros lados
Para atravessar, quando
O perigo estava abaixo de nós.

Tão bem nos esquecemos 
De olhar para cima, quando
Era a retaguarda que nos
Preocupava.

Mas não se esqueça, 
Daquela lembrança escorregadia,
Que virou-mexeu nos escapa
Pela memória franzina.

Apesar do futuro incerto 
E das embaçadas suspeitas,
Do que possa ou não vir-a-ser,
Nós mudamos o mundo
Uma última vez,
Hoje mais cedo.

04/09/26





Especialista em Constrangimento 

Não pense que tenho algo 
Relevante a dizer.
Não pense que alguém tem.

Sou só um poeta qualquer,
Mão-de-obra barata do precariado
[inadequado e descartável],
Que torce o ócio, forçando até o limite,
Fazendo dele respingarem versos.

Mas o frenesi tem sempre
Mais a oferecer,
Do que o tédio da ociosidade.

Pena que o frenético 
Não seja optativo, fazendo 
Da balbúrdia nosso estado natural.

Sem pretensão alguma 
De explicação,
Deixo que os equívocos 
Se acumulem.

Fiz do incompreensível 
Minha profissão 
E aperfeiçoo-me 
Em todas ocasiões que posso.

Escolho permanecer em silêncio,
Até que a ausência de respostas
Se torne insuportável.

Enquanto alguns insistem 
Em dizer algo sobre tudo, 
Outros nada tendo a dizer
À todos confundem,
Com tua chocante invisibilidade.

04/09/26





O sentido virá à tona

Às vezes um poema 
É só um poema,
Por vezes uma rima
É só uma rima,

Não guardando em si
Nenhuma revelação 
Surpreendente, nenhuma
Mensagem espiritual elevada.

Se ao menos por um flash
Instantâneo, não nos ocupássemos 
De toda podridão que nos cerca,

Talvez sentíssemos em nossa
Pele abatida e desidratada,
Um último sopro da brisa primaveril.

Mesmo uma flor morta,
Caída-sêca-despetalada,
Ainda serve para adubar.

06/09/26







Amor Fati

Abraçar um cavalo açoitado 
E pedir-lhe perdão
Pela humanidade,
É o único ato de sanidade,
Num mundo tomado
Pela loucura.

06/09/26








Miniaturas de Porcelana

Próximas demais 
Da quina da mesa,
É sempre um risco 
Deixar peças frágeis,
Desprotegidas por aí.

Delicadas e meigas,
Necessitam de zelo,
Exigem cuidado atencioso 
E constante dedicação.

Eram três as pequenas 
Miniaturas de porcelana,
Raridades feitas para 
Um habitat seguro.

Esquecidas num quiosque 
De praia, passavam 
De colo em colo,
Em troca de um copo de açaí.

Como foi que moemos 
A inocência?!
Quando foi que a partimos 
Em mil pedaços?!

Então resta a pergunta final,
Quem poderá nos punir?!
E onde haverá castigo
Suficiente para todos nós?!

06/09/26




Revolta dos Fantoches 

Por mais perspicaz 
Que fosse o titereiro,
Nem mesmo uma única 
Vez, supôs que tal ocorrência 
Acontecesse em tua custódia.

Imediatamente após 
O rompimento dos fios,
Que a aprisionavam no cenário,
A marionete correu, fugindo 
Consciente, de tua trágica paródia.

E correu tão rápido, que ficou
Surpresa consigo mesma,
Ao descobrir que havia nela
Tamanha articulação.

Finalmente escolhia
Teu próprio movimento,
Um caminho que nunca 
Imaginara trilhar e no meio
Da encruzilhada, encontrou-se

Diante deles, fugitivos silenciosos,
Bonecos de ventríloquo, velhos amigos 
De jornada encarcerada, agora soltos,
Num mundo inteiro de possibilidades, 
Só para liberdade deviam satisfação.

07/09/26





Sonho encontra o concreto 

Especulando cada uma das ilusões,
Colhidas e peneiradas,
Estocadas no celeiro 
De nossas suposições.

Quando saturado o armazenamento,
Uma parcela reciclada,
Outra descartada no 
Acostamento das decepções.

Algumas poucas singulares que são,
Em tua singularidade 
Nada mesmo convencional,
Encontram a profetizada realização.

Ainda que não mais seja um
Entusiasta das rimas e combinações,
Peço aqui perdão, aos leitores e à leitura,
Pois se fizeram elas necessárias,
E abundantemente enjoativas até então.

07/09/26





M de Manzoli 

transcorria 
todos os seus dias
em alerta, 
constante estado
de vigília.

entendia tanto de história 
quanto geografia, mas versava
com fluência entre filósofos,
sociólogos e antropologia.

tinha um coração enorme
e uma mão excelente 
pra poesia.

ela amava mais os animais 
que as pessoas.
ninguém poderia 
culpá-la por isso.

e depois
de tudo que leu, 
viu e viveu,
você concordaria. 

08/09/26





Arranjo para Begônias 

as palavras 
eram de julgamento,
os olhares 
de condenação,

mas nada se comparava 
ao toque, truculento,
em tons que alternavam
entre vermelho vinho,
azulado e roxo escuro.

habituada aos
desprezos contínuos,
fazia dos sorrisos
tua arma letal.

alguns são 
mesquinhos
e egoístas 
de vez em quando,

outros são 
a todo momento 
e sem moderação.

desde muito cedo
foi iniciada na relação 
violenta, onde os
desentendimentos
são sufocados
pela força.

ambiente cujo
o diálogo jamais
prosperou.

vivendo tanto nisso
que se afeiçoou à dor,
fazendo das cicatrizes 
tuas melhores confidentes.

mas ela só queria, 
o que todo mundo 
quer.

alguém que pudesse 
amá-la 
como ela é, 

alguém que 
não arrancasse tudo dela 
em troca disso.

mas neste poema 
ela dita teus
termos,

na estrofe final 
rompeu as correntes,
saiu pela frente,

refez tuas linhas 
e experimentou a felicidade, 
ao menos neste último verso.

09/09/26




Nano-romance

me equilibro com cautela 
em teu sorriso, 
uma ampla extensão 
a se percorrer.

de uma margem à outra dos teus lábios,
vão se assentando 
contrariedades, 

com um elevado índice de 
massa corpórea. mas nosso treino 
vigoroso potencializa as alegrias,

numa rotina diária severa, que embala
séries e repetições,
ultrapassamos as debilidades 
momentâneas, um intervalo 
de cada vez.

em alguns casos particulares 
são os gestos minúsculos,
do cotidiano despercebido,
que sustentam um amor
inteiro.

11/09/26





Jogo Rápido 

Ele sacou um "eu te amo" 
com efeito,

Num movimento rápido 
E surpreendente,
Ela devolveu o "IDEM",

Bem na quina 
Da mesa.

11/09/26






Tempo Fechado no atol das Ba-rrimas 

Quando aquele furacão 
Tropical de palavras,
Se viu diante

Do ciclone das reflexões,
Não restou-lhe outra alternativa,
Senão aquela velha 
Proposta indecente:

Nem que as consequências 
Derrubem toda prosa
Acumulada,

Vamos juntos 
Inundar o mundo 
De poesia.

12/09/26





O Despertador de Cthulhu 

com todo esse mundaréu 
que desaba lá fora,
só queria uma única coisa,
tá roncando agora.

12/09/26





Poesia-Vale-Tudo

Soquei três palavras chulas
Num verso sem pontuação 
Estrofe imobilizada por estrangulamento 
Desrima num fôlego [apagou]
Era nocaute técnico 

12/09/26






Nunca aprendi usar a crase

Nem todo mundo aprende a ler,
Quem dera pudessem todos.
Aqueles que aprendem nem sempre
Interpretam, quem dera entendessem.

Aprendi muito com o xadrez,
Ele nos ensina o cálculo,
Mesmo nunca tendo aprendido
A calcular, nem decorado 
A tabuada.

(depois de aprender as regras
é possível quebrá-las)

Quando aprendi o básico 
Sobre malabarismo, mantive no ar
Ao menos três malabares.

E o equilíbrio veio da corda-bamba,
Que hoje chamamos de slackline,
Apesar de não serem a mesma coisa,
Nos proporcionam a mesma emoção.

Lutar contra a gravidade, me fascina.
Já falei sobre isso algumas vezes,
Só que a física nunca cai de moda.

[Então parei este poema 
No meio, para apreciar o vôo 
De um beija-flor, num vaso da varanda]

Voltando ao poema, podemos
Explorar muito sobre aprendizado,
Mas tudo o que deixamos de aprender,
Forma um paralelo de universos
Empanturrados do desconhecido.

Todavia em resumo, aquilo que 
Chegou até nós e decidimos aplicar 
Em nossas instantâneas existências

(ainda que escrevamos na forma inculta),
Nos faz suportar até mesmo
Todas essas normas gramaticais.

12/09/26






Fusão Poética de Cenários Banais

[As Prosaicas Aventuras de Poema Esquálido e Poeta Exaurido] 

Destituído de todo e qualquer propósito 
Ou significado superior,
Alguns poemas não vieram

Para dizer alguma coisa,
Alguns foram concebidos
Para dizer coisa nenhuma
Ou menos ainda.

Ocupar espaço na lauda,
Preencher o vazio com
Um desperdício insensato 
De palavras tolas.

Uma obra sobre a mais pura
Ausência de acontecimentos, 
Desgatilhos emocionais.

Coletando todo lixo dos aterros
Literários e descartando-os
Juntamente com os entulhos 
Espaço-temporais, de nossa Era-Oca.

[As Horripilantes Aventuras de Poema Horrível e Poeta Exausto]

Dos amores avassaladores
Não restam resquícios,
Dos desastres aterradores e paralisantes 
Nenhum sensacionalismo,

Para se converter em criação 
Poética, com terminologias 
Rebuscadas, que fazem o autor 
Se passar por alguém, muito 
Mais intelectual do que realmente é.

Alguns poemas são só 
O exercício fútil, canalizado
Pelo péssimo hábito em produzir 

Trovas contra si mesmo, de um poeta 
Cansado demais, para
Dizer algo relevante.

13/09/26





Com quais assuntos se ocupam as borboletas?

Quem as observava ao longe,
Não poderia sequer especular,
Quais temas alimentavam tuas
Cambaleantes conversas.

Ao se aproximar de seu idioma
Incompreensível e destituído 
De sonoridade, que não possuía 
Sílabas ou articulação,

Apenas suas asas num esvoaçar
Persistente, emitiam um mínimo 
Ruído, infinitesimal perto do
Som barulhento das ocorrências 

Imensas, que se alastram
Mundo afora. Que assuntos
Podem interessar criaturas 
Tão intrigantes, que fazem da vida
Esta dança descompromissada.

14/09/26






Sinfonia dos Maltrapilhos 

Que reme 
Enquanto lhe sobrarem forças,
Que rime quando não houver escolha.
- Faremos arte até o fim.
 
Aponte para o horizonte 
E caminhe na direção daquele
Que se afasta a cada passo.

Jogue os dados na fogueira, 
Pois a sorte nós fazemos.
Aos seres azarados não resta 

Alternativa, senão cuspir 
No prato da fortuna.

Que os maltrapilhos 
E escalavrados façam do
Lamaçal teu templo de glórias.

E nos instantes derradeiros,
Quando tudo mirar pro
Inescapável recomeço,

Lembre-se de esquecer 
O que não vale ser lembrado
E não se esqueça do primordial:
- Faremos da arte o nosso fim.

15/09/26





Poema-Relâmpago

Estava finalmente estraçalhado 
Em mil pedaços meu coração,
Cada fragmento projetado 
Numa trajetória diferente.
Mas o brilho cegante, não causou
Tanto espanto, quanto 
O estrondo ensurdecedor.

18/09/26






Versenário

Nunca entendi nada sobre o amor.
Existe um senso-comum,
De que poetas são investigadores 
Da alma humana e de tuas
Mazelas, é tudo besteira.

Não dominamos nenhum 
Saber profundo e misterioso,
Que abarque as incertezas 
Insuportáveis e contemple os
Segredos remotos de eras perdidas.

Nunca consegui expressar 
O que sinto, mesmo tendo escrito 
Milhares de poemas,
Nem sempre a prática 
Leva à perfeição.

Talvez eu tenha errado na técnica,
Ou o conteúdo disso tudo,
Seja tão subjetivo, que nem mesmo
Os maiores desbravadores do

Abstrato, possuem as competências 
Para concretizar, aquilo que já nasceu
Paradoxalmente, munido
De consistência e desprovido 
De solidez, condenado a ser intocável.

19/09/26





Joanete e os Membros Inferiores 

era ele 
novamente,
chegando 
sem aviso prévio,

o dolorido
formigamento,
tinha início 
na ponta do hálux 

e ia se alastrando,
percorrendo 
todo metatarso, 

para chegar 
ao desavisado 
calcâneo, 

que latejaria 
persistentemente 
pela manhã, 
a tarde inteira, 
até o fim do dia.

20/09/26




Errantes e teus inúmeros feitos

então 
com a voz meio 
engasgada,
encarando o nada,

ela disse, 
enquanto mastigava 
alguma coisa: 
isso foi 
um grande erro.

em contrapartida 
de maneira eloquente,
escorado no batente,
ele respondeu:

certamente,
este foi 
um erro crasso,

de proporções 
estupendas
e desdobramentos 
radicalmente estúpidos. 

e digo mais, 
é provável 
que tenha sido

ao mesmo tempo,
o maior e o pior 
de todos os erros.

20/09/26









As Grudentas Aventuras do Senhor Limbo 

Se esgueirando pela muralha 
Do corredor, alastradas numa
Formação inviolável,
Avistavam-se as legiões 
Esverdeadas.

Pouco mais concentradas 
Num canto que noutro,
Sustentando toda aquela 
Tinta descascada.

A previsão prometia
Algum resquício ensolarado 
No fim da tarde,
A meteorologia mentira 
Inescrupulosamente.

Seria mais uma semana
De borrascas torrenciais,
Onde já estava alagado 
O nível aumentaria.

Era um reino ensopado,
Abarrotado de súditos 
Implorando pela secura,
Que há muito havia abandonado 
Aquelas colinas encharcadas.

Local onde o único soberano,
Era o próprio clima liquefeito 
E ali, naquele brejo empapado,
Nenhum musgo que se preze
Ousaria desafiar-lhe.

21/09/26





Três Lunáticos uivando de costas para Lua

recortar um pedaço da noite estrelada,
emoldurando-a 
numa parede

apática, 
dum quarto vazio,
seria um belo gesto de admiração.

ao invés disso, oferecer numa
bandeja de prata, 
uma fatia caprichada,
daquela orelha esquerda cansada

de ouvir tantas asneiras,
comprovam que o amor e a loucura 
são as duas faces 
da devoção.

como não sei pintar atirando 
tinta na tela, 
despejo todo meu desespero 
no papel, 

na forma de sentenças avulsas,
pois não tenho 
paciência ou habilidade 
para digerir as ideias que me 
atormentam.

ao invés de criar uma nova corrente 
da pintura de ação,
como faria Pollock e seus
demônios tão familiares, 

abandono o gotejamento,
abraço forte a inundação
e me conforto em saber que ele fez 
arte, 

sóbrio ou severamente alterado,
até mesmo quando seu veículo 
[clássico conversível] colidiu,

após um capotamento a centenas 
de quilômetros, com aquela velha árvore 
despreocupada, 

usando teu espesso sangue 
como tinta e o para-brisa como tela,
arremessado através da janela,
numa última e violenta criação.

22/09/26







O Sorriso de Schopenhauer  

Voraz, teu pêndulo feroz,
Grande confidente das mentes
Debulhadas e servidas a tira-gosto.
Empilhe teus pleonasmos,

Seremos assim redundantes
Até expirar nossa validade,
Pendulando alegremente,
Num eixo (in)flexível.

De um lado a vida, como a certeza 
Da derrota, do outro a morte
Em inesgotáveis possibilidades.

Tudo o que não éramos,
Antes de ser, tudo aquilo que não 
Seremos depois de estar.

Melhor amigo das travessuras 
Que Cronos nos impõe,
Agora que os deuses também 
Se findaram, quem sabe nos reste
A concepção de nós mesmos.

Toda manhã que acorda vivo,
Deseja morrer.
Será que o dia em que amanhecer 
Morto, estará ele sonhando 
Com a vida?

23/09/26 - 06h23





♒2026♒



Uma última Balada para o Poeta-Imortal 

Bons poetas são aqueles 
Que escrevem belos poemas,
Inspiradores, emocionantes,
Reflexivos, questionadores.

Mas diferente destes, 
Existe também, num
Canto perdido da poesia
Maldita, aquilo que se denominou
Na inconveniência do escândalo,
De poeta-imortal.

Em tua distorção genealógica
E monstruosidade genética,
Aquela entidade absurda,

Amplamente absorta e absorvida
Pelo estranhamento da poiésis,
Conquista tal patamar,

Na inevitabilidade da perseguição.
Poeta-Imortal é aquele que foi
Censurado, foragido, rejeitado,

Encarcerado, banido, envenenado,
E como se não bastasse,
Amaldiçoado por teus versos,

Condenado ao exílio e à pena
Capital, testemunhando tua
Própria obra consumida e incinerada,
Diante da multidão ensandecida,

Clamando por tua ruína
Com tamanho fervor,
Que restou-lhe apenas 
A imortalidade.

23/09/26





Técnicas para se portar diante daquilo que trafega em ambas direções 

Acordar às duas e dezoito 
Da madrugada, para escrever 
Poemas desconexos, não
Se configura um hábito 

Saudável para nenhum rimante,
Que por ventura volte a ler
Tais impropriedades.

Desde muito cedo 
É preciso impor
Alguns limites em certas 
Relações. Jamais permiti,

Que determinadas ideias 
Me acordassem
No meio da noite, para
Dizer seja lá o que elas 
Queriam dizer.

Nunca deixe as incógnitas 
Assumirem o controle,
Elas são autofágicas 
E vão devorá--lo 
De dentro pra fora.

De modo igual,
Não permita que as
Opiniões tomem muito 
Fôlego, elas vem sendo 

Infladas há um tempo
Considerável e vão carbonizá-lo
De fora pra dentro,
Sem nenhum arrependimento.

24/09/26 - 02h18





Ricochete 

Processo eleitoral
Sujo e barulhento,

Abstinência recorde,
Brancos, nulos, inválidos,

Votação esmagadora,
Vitória incontestável.

Ninguém conhecia 
Tuas propostas,

Mas pelos descalabros 
Que reverberavam 

Do palanque, o estrago 
Já era garantido.

24/09/26






Inversamente Proporcional 

É tudo tão ingrato na arte.
Enquanto minhas horas
De sono, pioram gradativamente,
Meus poemas tendem a melhorar.

24/09/26






Crônicas de um Anatomista 

nunca 
escrevi 
poesia.

o que tenho feito 
nos últimos vinte anos,

é narrar 
meticulosamente
o embate corporal,

entre meu encéfalo 
estressado 
e a castigada 
bomba cardíaca.

24/09/26






Morro dos Ventos Tisicos  

Revirando o lixo 
Me encontraste,
Radiante em meio 
Ao fedor.

Diante destas seringas 
Descartadas como
Testemunha,

Eu contrairia um vírus 
Mortal qualquer por você,
Só para acompanhá-la 
Pelo vale da sombra 
Da morte.

Se isso não é amor,
Me diga em qual
Grau de esquizofrenia,

Em minha severa 
Catatonia, eu enfim 
Nesta sátira nefasta
Me enquadraria?

24/09/26





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Michel F.M. - Criações 2026 - Parte 6

Michel F.M. - Criações 2026 - Parte 6 🛩️2026🛩️ Utopia em fiapos  só há uma coisa que eu queria, mas o que queremos,  no final ...