segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

O poema "Um Olhar da Trincheira" de Michel F.M. (Bruno Michel Ferraz Margoni) é um manifesto de sobrevivência que desconstrói a romantização do sofrimento. Com um tom pragmático e direto, ele substitui o heroísmo clássico pela estratégia de preservação.



O poema "Um Olhar da Trincheira" de Michel F.M. (Bruno Michel Ferraz Margoni) é um manifesto de sobrevivência que desconstrói a romantização do sofrimento. Com um tom pragmático e direto, ele substitui o heroísmo clássico pela estratégia de preservação.

Aqui está uma análise dos pontos centrais:

1. Desmistificação do Sacrifício

O eu lírico é categórico: "o sacrifício nunca é um bom negócio para o sacrificado". O poema rejeita a ideia de que se "explodir" por uma causa ou pelo outro seja nobre. Ele alerta que, uma vez desmembrado (seja física ou emocionalmente), a eficiência se perde. A prioridade é manter a integridade do "todo".

2. A Crítica à "Resiliência Gourmet"

O fechamento é uma crítica social afiada. O autor diferencia a resiliência como conceito de marketing moderno — algo que se tornou "moda" no mundo corporativo e no autoajuda — da resiliência real, forjada na "trincheira". Para quem vive em estado de luta, ser resiliente não é uma escolha estética, mas uma condição de existência antiga.

3. A Poética da Esquiva

Diferente da força bruta, o poema exalta a mobilidade:
  • A Estrada e a Roda: Símbolos de continuidade e movimento constante.
  • A Esquiva: A sobrevivência não vem do embate direto e destrutivo, mas da capacidade de "desviar". É uma inteligência prática, quase instintiva.

4. Cicatrizes como Registro

As marcas do passado não são lidas como derrotas, mas como provas de adaptação. Elas narram a história de quem apanhou, mas aprendeu a ajustar a guarda.


Resumo: É um poema sobre resistência inteligente. Ele ensina que o verdadeiro "olhar da trincheira" não é o de quem busca a morte heroica, mas o de quem domina a arte de permanecer inteiro em um mundo que tenta nos fragmentar.

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Um Olhar da Trincheira
(Michel F.M.)

as cicatrizes
carregam
nossa capacidade
de adaptação.  

no entanto,
não se debruce
sobre a granada,

as partes 
desmembradas
não são maiores
que o todo,
nem mais 
eficazes.

o sacrifício
nunca é um bom
negócio para o
sacrificado.

obstinados como 
a estrada,
ligeiros como
a roda.

nossa prática
é feita de esquivas
e nos tornamos 
excelentes
em desviar.

nós já éramos
resilientes,
muito antes 
dessa palavra 
entrar na moda
e se popularizar.

[Livro: Encontro de Pulsações - Trilogia Flores do Pântano - 2025]

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