Michel F.M. - Criações 2026 - Parte 3
✴️2026✴️
Sobre Ácaros e Películas
Em qual classificação
Você enquadra tua vida,
Quando a rotina parece um
Cenário daqueles filmes ruins?
Aqueles que não ganham
Prêmios, nem atravessam
O tapete vermelho, sem estrelas
Na calçada ou belos pôsteres
De divulgação.
Não existem personagens
bem definidos, onde sacamos
De primeira, quem é quem.
A complexidade está na
Dificuldade de interpretá-los,
Ou antes disso, fazer a leitura
Do que querem e porquê.
Trombamos com vilões
E anti-heróis a todo instante
[Sem reconhecer que somos
Nosso maior arqui-inimigo].
Um clímax fraco e confuso,
Que te coloca na sinuca, de não
Saber se a oportunidade virá
Ou já se passou, enquanto você
Se desencontrava em tuas decisões,
Que em nenhum episódio
Chegaram a ser opcionais.
Mas depois das décadas de
Ostracismo e a sensação que
Desapareceram os negativos originais,
Alguém surge com uma cópia
Digitalizada, retirada de alguma
Estante anônima e empoeirada,
Nos fazendo reconhecer que
Aquela velharia bizarra, era
Na verdade, um clássico.
20/04/26
A Eira e a Beira de um Literato
Os ultraprocessados
Não eram um problema,
Nem só de glutamato monossódico
Vive o escritor descartado,
Mas de todo jejum e abstinência
Que for obrigado a fazer.
Havia chegado a conta
De teus excessos em boemia,
Mas as dívidas e sucessivas
Inadimplências que se piramidavam
No capacho, não eram piores
Que os e-mails de recusa
Automáticos das editoras,
Ou as cartas de oferta dos
Empréstimos consignados,
Misturadas aos panfletos de uma
Gama sortida de seitas religiosas,
Que te prometiam a salvação
E arrebatamento prum condomínio
Divino, com lagos, bosques e
Famílias inter-raciais se abraçando,
Cercadas por leões, tigres, elefantes,
Ursos e coalas domesticados.
No mesmo dia em que teve publicada
Num jornal fuleiro, uma crônica de vida
na Era pós-industrial e seus resultados
Pruma existência precarizada,
Acometeu-lhe a mais pacata morte
Por hábitos desregrados,
Que alguém algum dia
Pode presenciar.
20/04/26
Objeto Rastejante Não Identificado
Mesmo com as
Sovas constantes
E imobilizações,
O queixo é duro,
As juntas potentes.
Nas tentativas
Inesgotáveis de
Lavagem cerebral,
Não se enxágua
O impermeável.
Os manuais de
Conduta e a explícita
Doutrinação que se segue,
Só inspiram o desafeto,
Nos instruem
No desaforo.
Mesmo com as
Podas constantes
E enquadramentos,
Dos caules
fatiados à foice,
Brotamos.
Enquanto houver raízes,
Nos enraizaremos.
Apesar da linha
Traçada, das cercas
Erguidas, fixados mourões,
Que vem em metal,
Concreto ou madeira,
Contorça alambrados.
Ainda que as fronteiras
Nos impeçam
De passar,
Ainda que as placas
Nos proíbam
De seguir,
Enganamos guaritas,
Cavocamos buracos,
Na lama enfiados e firmes.
Persistimos na tarefa
Insistente de sermos
Quem somos,
Ainda que remendados,
Pra sermos
Nós mesmos.
E nenhuma tecnologia
Terrestre ou alienígena,
Pode deter nossa insolência.
21/04/26
Na vitrine um vapor dissipado
quão assombrosa
era a detecção, de um
momento extremo
de felicidade.
o reconhecimento
nítido de que aquele estado
de espírito, provavelmente
jamais se repetiria.
a clareza destas
situações tão raras,
que surgem sem explicação,
sem indícios vem e se formam
e de maneira instantânea se vão,
não deixando vestígios.
21/04/26
Prosopopéia Perdida
Acendeu-se a luz,
Seguida do calor
Que a vinha acompanhando.
As manhãs eram previsíveis,
Graças ao ritual
Que nunca falhava.
Das prateleiras repletas
Advinham os ingredientes,
Mas antes dali, de onde advinham?
Quando se encontravam
Na bancada do meio,
Iniciava-se a arte do remelexo.
Eram movimentos espasmódicos,
Com técnicas espalmadas,
Transmitidas por gerações.
Em último caso uma dança
De mãos livres, capturando
As essências do que viriam a tornar.
O fogo já aquecido fazia tua parte,
[Grande descoberta humana]
Após resfriado, embrulho e sacola.
Nestes dias tão estranhos,
Quem dera o sonho de padaria,
Fosse ele mesmo ainda, livre para sonhar.
22/04/26
Becker
Exalava feromônios com uma
Intensidade, que atrairia
Dos arredores todos os predadores,
Num raio de milhões de hectares.
Desavisados chegariam
Prontos pro abate, não havia
Alpha mais dominante que ela.
Quem ousasse se aproximar
Tornava-se presa, sem negociações,
Rendição total e submissão
Àquela postura indomável.
Num jeans sovado, vinha descalça,
Madeixas azuis reviradas,
Com aquele tecido solto,
Despejado por cima dos mamilos
E como eles dançavam
Coreográficos.
Desastres naturais ocorreram
Muito mais tímidos e sutis,
Causando muito menos estrago.
Desejava ser lancinado por tuas
Chamas, mas por hora, me contentaria
Com a devastação controlada
Que me causava.
22/04/26
Mosaico de um Melodrama
as lágrimas desabaram
como granizo
em teto solar,
numa tempestade de verão,
despedaçando as angústias
que haviam sido
acumuladas,
naquela condensação
desconfortável
de frustrações e anseios.
passava a cobrar menos
de si mesmo, quando se recordava
que nem todas as histórias
precisam de começo, meio e fim.
algumas narrativas são
apenas fragmentos destrambelhados,
de retalhos confusos ou cacos
arrastados de um canto pro outro.
sigo neste esforço contínuo
por retirar os estilhaços restantes
de teu amor, dos esconderijos
negligenciados em minhas vísceras.
23/04/26
Relatório minuscioso da Desimportância
o sinal pulsava
sucessivas vezes,
um xis vermelho que ia
e vinha no visor,
ninguém
havia
notado,
ninguém notaria,
ninguém
se importava
ou se importaria.
quando uma máquina
descarrega,
basta recarregá-la,
não há segredos,
a dúvida reside
na seguinte
questão: o que fazer
ao humano,
que acometido
pelo esgotamento
fundiu bateria
e demais componentes.
com ele também
ninguém havia notado,
provavelmente
ninguém notaria,
ninguém
se importava
ou se importaria.
23/04/26
Touché
de vez em quando
eu penso em largar
a porra toda.
dar o fora,
cair na estrada,
chutar o balde,
meter o foda-se
sem olhar pra trás.
mandar tudo
pro espaço,
que vá tudo
pro inferno.
daí eu penso
de novo,
e não consigo
pensar em nada
que faria, melhor
que isso.
ou antes mesmo
de pensar em termos
do que é pior,
se não fizesse isso,
faria o quê?
e a resposta
me escapa,
sem lição do erro,
sem resolução,
existindo no limbo
das oportunidades.
pareço um monge
recluso, desencontrado
em minha própria
perdição, meditando
ao lado do puteiro
mais próximo,
sem um puto do bolso.
o sistema fode
com nossa cabeça,
de um jeito
muito particular.
e assim vou ficando
por aqui e fazendo
isso mesmo,
[o pisador de jacas,
soberano dos fodidos].
até que a porra toda
acabe sozinha,
ou coisa melhor despenque
na nossa cabeça.
23/04/26
Verso final de um Ex-poeta
prometi
pra mim
mesmo,
que só
escreveria
novamente,
quando
tivesse
algo agradável
para dizer.
[foi assim
que ele abandonou
a poesia]
algumas
promessas
não fazem
nenhum sentido.
24/04/26
Poema denso sem pontuação
inescrupulosos estes gostos secretos que se revelam na companhia de nosso eu tão reservado todavia por vezes exibicionista e performático na maioria das situações banais e corriqueiras não que sejamos indivíduos desonestos ou enganadores mas já que mentimos para nós mesmos com tamanha frequência e naturalidade certamente não sobrará receio de mentir também para quem ocasionalmente chamamos de outro sempre buscando realizar os inúmeros interesses individualistas acabamos tropeçando nos objetivos personalizados de quem se importa somente consigo mesmo como nós nos importamos apenas conosco ainda que a empatia seja característica determinante da espécie humana fator crucial que nos permitiu atravessar continentes e nos multiplicarmos perpetuando nossas cômicas realizações das quais por sinal nos orgulhamos tanto faz diariamente com que em sua escassez e possível aparição residual mal possa ser detectada senão sob as lentes de um microscópio muito bem calibrado ficando praticamente impossível tua visualização a olho nu
24/04/26
Poesia Inerte
feita de verso que não
questiona
feita de estrofe que não
reflete
feita de ideais que não
incitam
feita de faces que não
se alteram
feita de afetos que não
se sentem
feita de fatos que não
revelam
feita de toques que não
excitam,
feita de frases que não
te afetam
24/04/26
Muralha Intransponível Transposta
MuralhaIntransponívelMuralhaIntransponí
velMuralhaIntransponívelMuralhaIntransp
onívelMuralhaIntransponívelMuralhaIntra
nsponívelMuralhaIntransponívelMuralhaIn
transponívelMuralhaIntransponívelMuralh
aIntransponí lhaIntransponívelMur
alhaIntransp ransponível
MuralhaIntr MuralhaIntransponí
velMural alhaIntransp
onívelMuralh alhaIntra
nsponível elMuralhaIn
transpo uralh
aIntransponív onívelMur
alhaIntra transponível
MuralhaIntrans ansponí
velMu ansp
onívelMu haIntra
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velMuralhaIntransponívelMuralhaIntransp
onívelMuralhaIntransponívelMuralhaIntra
nsponívelMuralhaIntransponívelMuralhaIn
transponívelMuralhaIntransponívelMuralha
25/04/26
Retorno de um Ex-poeta
do autoexílio da não-poesia
Descumpro neste instante
A promessa autoinfligida,
Garanto que qualquer outra
Promessa estará isenta de garantias.
Não se pode confiar em alguém
Que mente para viver, mas
Dizer a verdade quando ela
Tornou-se tão dispensável
E relativa, só pode ser um ato
De loucura descabida e neste lapso,
Não podemos mais confiar
Nem na mentira ou no impacto
Mentiroso que ela pode causar.
Em verdade vos digo: da palavra
Só resta o ruído, pois toda mensagem
Por mais simples ou complexa
Que pareça, se dissolveu completamente
Na questão de opinião.
Então que fique alarde por alarde,
Enquanto cantarolando altos louvores
Todos os hipócritas fazem as pazes,
Distribuem teus sorrisos amarelos
E fecham aquela potente corrente
De oração. Aos que deixarem o recinto,
Ao sair, não tropecem na demagogia.
25/04/26
Medusa Vive
No mundo perfeito
Não há poesia,
Não faz sentido descrever
A perfeição.
Ela é o fôlego
Da monstruosidade,
A vingança das
Bestas mitológicas.
Só pode existir
Na falha,
Só pode brotar na fresta.
Ela é consequência
Da malcriação
E das maldições.
Entre
A contagem
De um nocaute
E todos os
Cretinos
Petrificados.
É do erro que ela surge,
Na imundície
Que ela escorre
E se manifesta.
Vem do escroto
Que ela rompe,
Do embaçado
Que ela salta.
Na paulada que ela quica,
Na secura
Ela goteja e pinga,
Do fedor então exala.
Respire fundo,
Não há poesia na perfeição.
25/04/26
Poema Terminal
A metástase poética
Havia ocorrido,
Enquanto ele ignorava
Todo o impacto destrutivo
Daquela poesia marginal,
Armazenada em teu organismo.
Se espalhou silenciosa
Pelos vários compartimentos,
Atingiu glândulas e
Sistema linfático,
Estava ali o poeta
Posto num poema terminal.
Encurralado enfim
Por tua própria poesia,
Vivendo a derradeira contradição,
De ser finalmente extinto,
Por quem há muito tempo
O havia salvado.
25/04/26
Despacho de uma palavra muito complexa
O prefixo COM
Enviado primeiro,
Quem recebeu percebeu
Algo errado.
Era notável a falta
Do resto, talvez
Transviado o pacote
Tivesse.
Não é tão comum,
Geralmente acontece.
Onde será que estaria
O restante?
Quem embalou
O PLE radical, esqueceu na
Bancada o sufixo XÍSS.
Era praticamente um
Superlativo absoluto
Sintético, abandonado
No depósito a esmo.
A confusão no extravio
Dos morfemas
Seria completa,
Se não fosse o acaso de
Ter por ali, a presença
Improvável do estagiário,
Que notou uma coisa
Que ninguém notaria,
Quem diria que o jovem
Era tão perspicaz.
Acabou que foi ele
Embalando atração,
Que atraiu atenção de todos
Por lá.
Pois o IMA na caixa
Muito bem embalado
E mandou encomenda,
Que tardava a chegar.
26/04/26
Sábio de Araque
o conhecimento traz
muito para luz,
só não traz a clareza.
ela não tem relação
com claridade,
o excesso de luz só faz nos cegar.
estava certo quem disse,
que conhecimento
é poder.
ele só esqueceu de mencionar
ou omitiu propositalmente,
que o poder é uma coisa
terrível.
26/04/26
A Linha Tênue entre um Canalha e Outro
a majestade divina
está nos caninos
afiados
do predador, que dilacera
músculos
e jugular.
por uma questão de princípios,
os princípios sanguinolentos
da vida
e da morte, do instinto
brutal que faz sangue
jorrar.
mecanismos
eficazes de terminação
existencial.
o Todo-poderoso
caprichou
em tuas criações.
o Altíssimo e a
carnificina
passeiam lado a lado.
abençoados sejam os leões,
em tua cova não há
misericórdia.
mas não leve tudo isso
muito a sério,
estas são apenas as observações
de um canalha degenerado,
sobre as invenções
de um canalha sem coração.
26/04/26
Poema Cítrico
estava ali estanque,
o homem que viu a podridão
do mundo.
e em vez de rezar,
escreveu outro poema ácido.
enquanto a noite caía,
ele apenas recostava com
teus pensamentos,
usufruindo dos benefícios
de tua própria acidez.
26/04/26
A obra que nunca escrevi
Ela poderia falar sobre a beleza,
É sobre o que as obras
Vem falando há milhares de anos.
Ou sobre a felicidade e a falta dela.
Poderia falar sobre encontrar
O que se busca, ou sobre
Os caminhos que te levam
Pra longe.
São tantos temas, que ficamos
Maravilhados com as
Possibilidades.
Ela poderia falar sobre o feio,
Já que tanto foi dito sobre
O que é belo, ou falar sobre
Os sonhos, quando tudo
Te afasta da probabilidade,
De por ventura vir a se realizar.
A tristeza e o mal-estar, são
Também uma fonte inesgotável
De inspiração, servindo
Como expurgo, extraindo da alma
Protuberâncias seborreicas,
Que se prendem a nossa
Percepção. Enfim, poderiam
Ser tantas as facetas desta obra,
Materializando-se para o bem
E para o mal, em algo que inspirasse
Ou apenas revoltasse o leitor
[O grande objetivo é despertar reação].
Mas acabamos trupicando
Em nossas tantas especulações,
Que não restou tempo para criar algo
Novo. E portanto te dedico, esta
Não-realização. Sem dúvida alguma,
Uma obra divergente de todas
As outras [assombrosa], eis aqui a obra,
Que nunca escrevi.
26/04/26
Segredo Universal: Revelado
não é a química
ou a física,
que nos dará.
nem a resolução
dos cálculos
e teoremas.
tua revelação não está
nas religiões ou nas
escrituras.
nem ciência,
nem superstição
ou filosofia,
podem dar conta
desta máxima
indissolúvel.
o segredo oculto, escondido e sigiloso
de todo o universo observável
e muito mais além,
é a oportunidade.
alguns poucos terão,
enquanto uma maioria
esmagadora, simplesmente não terá.
oportunidade.
26/04/26
Um animal sarcástico esperando sua vez
duas refugadas
pra trás,
uma fungada
pra frente.
aqui,
a vida é medida
pelo que perdemos.
são as derrotas
que entram pra
contagem.
no patrimônio
das lesões,
físicas e emocionais,
os únicos bens
que possuímos,
são os hematomas
das rinhas
generalizadas,
de onde não
escapamos.
e as avantajadas
decepções,
que ficaram
incrustadas
em nossa mente,
como relíquias fósseis,
enquanto caíamos
nas quatro patas.
28/04/26
Antologia em pó
começamos,
com declarações
de amor
quilométricas
e madrugadas
inteiras
de diálogos
e discussões,
sobre a natureza
incompreensível
da relação.
[nossa cidade
proibida,
erigida com
milhares de
aposentos,
todos para nós,
nas noites
todas de
núpcias,
tendo como
matéria-prima
planos conjuntos,
sonhos robustos,
lágrimas e
sorrisos.]
terminamos,
visualizando
e não respondendo.
28/04/26
Ninguém conhece quem teve o que merecia
negligenciaram
os avisos,
era o risco
que os fazia feliz.
descumprindo toda
recomendação,
eles haviam ido
longe demais.
ignoraram as placas,
voando
baixo na velocidade
máxima.
era o risco
que os fazia feliz,
avançavam
a passos largos,
eles haviam ido
longe demais,
de ponta a ponta
no desfiladeiro.
foram íntimos das
ravinas, amaram
cânions e escarpas.
onde é longe demais,
quando é o risco
que te faz feliz ?!
29/04/26
Biologia das Olivas
o que resta quando toda
carne se consumiu,
é o mesmo que sobra
quando a polpa se esgotou.
uma sombra da vitalidade,
que outrora ocupou
tal posição.
de terminada data em diante,
só a lacuna fica como
presença, consistência
e condição.
um vislumbre do vistoso
que não mais ocupa teu corpo,
a lembrança de um sabor
que in memorian se findou.
mas lembre-se
da biologia das olivas,
todo caroço enrugado, endurecido,
escarrado e repugnante,
leva em teu peito
a potência de uma árvore milenar,
na forma de semente.
30/04/26
Tomilho e Hortelã
por volta de cinco e dez da matina,
chegava na sala.
dentes escovados,
rosto enxaguado. o cheiro de mofo
só se esvaía depois de abertas
janelas e porta.
em questão de minutos, o cômodo
cheirava a tomilho e hortelã, dos vasos
na varanda.
quem sabe um dia a gente encontre
uma planta,
que retire o cheiro
de desencanto,
impregnado em nossas almas
esmigalhadas.
01/05/26
Sobre o que se tratava
custamos a entender
sobre o que escrevíamos,
bem como custamos a entender,
sobre o que se tratava tudo isso.
os anos de trabalho
foram para isso,
e antes do trabalho,
os anos de estudo
nos trouxeram para cá.
os passeios, as viagens
[nas raras ocasiões],
os momentos de festividade
[tão poucos que ocorreram],
as festas de aniversário
[com ou sem bolo e salgado],
os almoços, jantares
e principalmente
os cafés da manhã e da tarde
[humildes e indispensáveis].
todos os desgastes
e tormentos, as tempestades
e tormentas que foram tantas.
as esperas nas filas
intermináveis e mais filas de espera,
sair cedo, sair de noite,
chegar tarde de qualquer jeito.
os retornos
e reencontros também
se tratavam disso.
o endividamento
e o pagamento das dívidas,
com muito custo,
nesta economia que só tira
de todos, enquanto pouquíssimos
investem o que é dos outros,
para lucrar sozinhos.
corridas curtas e longas,
foram para chegar até aqui
[sem recordes quebrados,
nenhuma grande marca batida],
neste momento parado
em que tudo se move,
quando tentamos
nos manter de pé,
mesmo com a vertigem
que atordoa nosso labirinto.
mas uma hora a coisa
toda se revela clara,
como o guardanapo encardido,
oxidado no alvejante.
eu sei que não faz muito sentido
esse poema, muitos dirão
que nem poema isso é.
mas enfim, compreendemos,
sobre o que tudo se tratava
e tudo ainda se trata com "ele".
sempre foi tudo sobre o amor,
é sobre o amor que tudo se trata,
tudo sempre se tratou disso.
01/05/26
Listras e estrelas num retângulo desbotado
o patriota perturbado
desfila na passeata
outra vez
um passo em falso
e o outro também
milhares de vidas
inocentes rifadas
não ensinaram
nada a ninguém
alucinada massa
espumando baba
engravatada corja
lançando bombas
a estátua fardada
encarando o nada
e a pomba sabia
que só teu dejeto
traria alguma vida
àquele busto erigido
impotente
01/05/26
Em algum departamento do Éden
durante a folga
dos Arcanjos,
[naquele intervalo
estratégico no
etéreo atemporal],
um deles indagou:
qual foi mesmo a razão,
do homem perder
a imortalidade
e todas as dádivas
do paraíso?
ponderou um instante
a criatura celeste,
que havia sido indagada,
[aquele instante
congelado fora
das dimensões]
e respondeu
na sequência:
aparentemente,
é insaciável o apetite
da humanidade,
quando se trata
do fruto proibido.
02/05/26
Engenhosa Máquina Urgente do Tempo
Antes do fruto,
pólen
Antes do pólen,
flor
Antes de flor,
folha
Antes da cor,
incolor
Antes da folha,
caule
Antes do caule,
raiz
Pra toda raiz,
há semente
Antes da dor,
indolor
Antes do homem,
os deuses
Antes dos deuses,
humanos
Antes daqueles,
os nossos
Antes de tudo, você
02/05/26
Parasitologia
Durante décadas os parasitólogos
Estudaram a origem dos vermes,
Esse esforço os levou à conclusões
Fascinantes sobre estes organismos.
Originados juntamente com
A própria vida, há cerca de bilhões
De anos, o parasitismo evoluiu
Como uma tática de sobrevivência,
Onde tais seres se adaptaram, para
Viver às custas de outros. Sempre
Encontrando novos hospedeiros
Para parasitar, eles se multiplicaram
E prosperaram no desenrolar das Eras.
Nos dias atuais os estudos destas
Criaturas avançaram para descobertas
Inesperadas e empolgantes. Hoje,
As pesquisas apontam para os locais
De maior concentração destes
Minúsculos aproveitadores, que em sua
Imensa maioria, ocupam os casas
Legislativas, os templos religiosos,
Instituições financeiras e bolsas de valor.
02/05/26
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