sábado, 2 de maio de 2026

Michel F.M. - Poemas 2026 - Parte 1


Michel F.M. - Criações 2026 - Parte 1

⛔2026⛔


Taxonomia Poética 

fincada no reino da rimância,
do filo estrofético
na classe das versálias.

pertencente à ordem 
questionantis,
advinda da família 
revolucionae,

no gênero homo
da espécie rimantis.
em resumo,
defino a poesia

como uma sequência 
quádrupla de movimentos: 
jab, direto, cruzado e gancho.
(sem esquivas)

23/01/26






Via Rápida de Energia 

orgulhoso de mim mesmo,
faço minhas as palavras 
do filósofo-louco,
torno-me aquilo que sou.

um construtor 
da fugacidade,
embrenho-me eternamente 
no ectoplasma da poiésis.

[se não entendeu nada
até aqui, entenderás menos
daqui em diante].

comprometido, alinho as ATPs
em desordem de tamanho

e venho quebrando-as,
coreografadas e exuberantes
adenosinas trifosfato
e fosfocretina.

despejo toda fonte energética 
naquilo que não vale nada,
naquilo que não dura nada,

naquilo que de mim saiu
neste lance excêntrico,
alcançou-se enfim
e se estravazou.

07/02/26







Sonho de um Folículo 

flutuando por entre
as evidências,
dos alvéolos rosáceos
límpidos,
olhou-me a emoção humana
e bradou:
 
sou a combinação 
de reações químicas 
e impulsos elétricos

de fato,
contínuos, insistentes, 
ritmados.

mas isto tu sabes,
agora conto-te algo
que não sabeis:

em algum lugar 
entre estes fenômenos 
explicáveis, 

há movimentos 
incompreensíveis,  
eventos enevoados,
que brotam das fendas 
e fissuras sensoriais, 

como ervas daninhas
encantadoras,
graciosas e espinhudas,
no inconcreto 
da percepção.

08/02/26





Diálogo entre um Santo Homem e uma Alma Penada

a religião 
nada fez, além 
de instrumentalizar 
a fé.

fundou a instituição 
fundindo nela 
a burocracia, 
distanciando-nos todos
da salvação.

[oh condenados!
prostrai-vos de joelhos,
para que o altíssimo
pareça ainda maior].

ao indivíduo 
simplório, tornou-se 
impossível 
conquistar o paraíso,

pois sendo este mundo
teu inferno, ele nunca
tocará a face
da redenção.

[voz que clama no deserto,
cala-te, estás atrapalhando 
a procissão].

perdeu-se o essencial 
e santificado, 
num rompante
estrategicamente
organizado.

[beneficiai-vos mensageiros, 
ainda que em prejuízo 
da mensagem].

mas a fé, é a fé.
e não pode ser outra coisa,
senão ela mesma.

algo que a religião 
não pode mudar,
algo que ela nem sequer 
pode explicar ou entender.

[toda vida será combustível,
todo ser será argamassa,
desintegraremos a substância,
para levantar templos
em teu louvor].

muito antes da demagogia, 
já pulsava a manifestação 
primitiva.

algo eminentemente 
humano, muito tempo 
antes do humano

canonizar-se e
tentar construir 
esta grande farsa 
ao redor de tudo.

09/02/26









Pintura Renascentista de um Autor Desconhecido 

surgiu da impossibilidade 
de fingir aquela forma de amor,
naquela intensidade.

não havia atuação 
neste nível performático,
capaz de produzir tal interpretação,

do amor que irrompe
as linhas roteirizadas, 
transfigurando a dramaturgia,

na inundação escarlate,
a cada milímetro percorrido 
das artérias potentes.

elevador das pressões
e do formigamento desconexo 
da confabulação.

para além da eternidade 
gasosa que dissipa-se 
em instantes, 

sabíamos que o nunca 
era um período
demasiado veloz,

para ser vivido às pressas,
tanto quanto a velocidade 
estratosférica da infinitude.

14/02/26





Tragédia Coreografada pelo Último Romântico 

o único homem 
que viveu 
inteiramente 
por uma inspiração, 

foi o poeta, 
que em tua 
licença poética, 

enigmática, imensa,
dramática, tocante
e patética,

se permitiu ser
completamente 
enganador.

14/02/26





Um círculo de estranhos debatendo seus achados 

foi quando um neurodivergente 
dirigiu-se ao outro e indagou:

- como faço, afinal, para mudar 
o mundo e com ele, tudo?

ao passo, 
que o segundo respondeu:

- não podes mudar o mundo,
não podes mudar tudo,
nem sequer o nada tu podes mudar.

a menos que sejas de inteiro insano,
um lunático-esquizofrênico-inflamado,
daqueles bem transviados e tronxos,
inteiramente louco-irrecuperável.

se esse for o caso, coloque-se
ao meu lado, caminharemos 
naquela direção e vamos começar...

15/02/26




Granito Róseo [não] Lapidado

migrando de célula em célula, 
transportada por proteínas 
carreadoras, com altas
habilidades de manobra.

Ela vem estabelecendo 
ligações com todas 
as moléculas de aminoácido
e glicose que lhe convém.

tua atratividade advém 
duma presença carismática
(por vezes inconveniente),

confirmada onde se situa,
rastreável e revigorante 
para onde se locomove.

como a proliferação 
de um patógeno, 
a poesia implacável,  
perpetua-se.

até que a vida se converta
na decomposição última
e todas as laboriosas 
atividades do organismo

cessem, abrindo espaço 
às próximas aglutinações
do carbono, ferro, cálcio e
por assim dizer minerais.

[nesta regeneração 
biopoética, da rima-viva]

quem sabe 
nas reencarnações vindouras,
voltemos como a pedra,

atirada na vidraça, para
causar dano, espanto e fazer
música uma última vez.

20/02/26




Tinta para o lado de fora

quem inventou 
de pintar 
as paredes 
dos fundos 

de verde 
mata atlântica, 
acertou.

onde antes 
a flora imponente
tremulava, 

hoje reside 
um monumento 
em tua homenagem.

a vida que outrora 
passante pulsava, 
naquele corredor 

tomado por limbo 
e bolor, agora jaz.

20/02/26




Resvalo 

e ainda que 
desconfiado, 
não mais 
suspeito 

daquilo 
que sou.

perdido, impreciso, 
pasteurizado 
e problemático, 
poeta.

20/02/26





Lágrima de um Humanoide na Chuva Ácida 

reconheceu-se 
na condição 
de combustível,

não como alimento 
que nutre 
e revigora,
por assim dizer, 

mas poluente
e infectante,
nesta redoma
de carvoaria.

massa amorfa,
ingerida-digerida-expelida 
sequencialmente,

como produto final
do metabolismo,
não-mais-orgânico
e sim maquínico.

em tua subjetividade 
derretida e substituída agora,
pela atualizada
linguagem 
de programação.

[o Hardware sentou-se
na sarjeta, enquanto 
as nuvens se acumulavam,

teve a confusa impressão 
de um déjà vu,
que teu Software 
tentava processar.]

21/02/26




Escultura Exagerada para um Poema Sem Nome

nesta manhã expirou
o último recurso de nossa
cumplicidade e identificação,
minha obsolescência emocional 
chegou em seu prazo de validade.

não havendo destino outro,
que o descarte, sem reciclagem.
com o reconhecimento de que
foi produtivo enquanto durou,
aceitemos que é inútil a produtividade.

viemos não para produzir, ou
corresponder às expectativas,
viemos antes de qualquer coisa,
para experienciar as sutilezas 
nutritivas, mas nem sempre palatáveis. 

no desfrute de versos que se 
contradizem e nem por isso deixam
de ser saborosos, nas vezes todas
que nos colocam contra parede,
desintegrando o que ousamos acreditar.

23/02/26




Thumbisneious

a menininha 
virou meninona,

pequena brabinha 
virou a brabona,

hoje ela é,
braba demais.

dedica-se ao todo 
que lhe é pertinente,

sempre pra frente 
nunca pra trás.

presença vidrante
nas danças da vida,

o gesto se move,
olhar colossal.

23/02/26





Cançoneta Perpétua 

certa vez 
fui indagado
por mim mesmo,

em uma das tantas 
encruzilhadas de minhas
múltiplas personalidades,

se duvidava das
convicções que tinha.

ao passo que respondi,
sem pestanejar:
quem é que em sã consciência,

não duvida de si mesmo,
ao menos 7 vezes
a cada 5 minutos.

26/02/26








Letárgico em Alerta

vim para descumprir 
as regras,
desprezo as premissas,
cuspo na cara dos princípios.

eu odeio o sistema 
e ele me odeia,
não fomos feitos 
para coexistir,
somos inimigos naturais.

ele me surra, 
eu devolvo do jeito que dá,
ambos insatisfeitos,
todos perdem, perdedores
insaciáveis e surrados.

ninguém avança,
nossa pauta é o retrocesso.
no cardápio digestório do mecanismo,
torno-me indigesto.

ele haverá de me regurgitar 
nalgum momento,
ou envenená-lo-ei.

enfrentaremos agitação 
com silêncio.
e para o frenesi devorador,
dedicamos nossa inanição, apatia e
destempero.

26/02/26





A Tragicomédia do Santo-Anjo-Condenado 

o versenário, criou um verso,
o estrofista concebeu estrofes,
do escritor brotaram livros.

enquanto a bailarina dançava,
o dançarino bailou.

ao palhaço sobraram risos
e sustos também.
já o equilibrista,

sustentou a si mesmo,
para que o trapezista não caísse. 

a atriz, a propósito, atuava.
o artista fez do que viu, arte.
mas aquele que dedicou

tudo à poesia,
não é um poeta.

restou a ele o destino,
de um santo-anjo-condenado,
sentenciado a dilacerar teu miocárdio 

e incendiar
o próprio coração, para que 
o mundo inteiro, continuasse pulsando.

28/02/26





Dissecação de um Pranto

as lágrimas começaram rolando,
um instante após, 
elas despencavam.

o que são as lágrimas,
quando ninguém as contempla?
sem plateia, elas são muito mais
do que meros sais minerais.

a própria essência, extravasada,
expulsa pelas glândulas 
e ductos lacrimais.

quando a alma não suporta 
o próprio tamanho, 
quando ela já não mais sustenta 
o próprio peso, ela há de escoar
para o lado de fora.

28/02/26




Vítimas anônimas e onde habitam 

mais uma manhã encharcada, 
na rua das bromélias, 4321.
outro assalto à mão armada 
de um imposto predial.

315 milímetros de água 
em 8 horas, 
era a expectativa de chuva 
para 2 meses.

como a tempestade não estava 
a par das estatísticas,
havia derrubado 
tudo de uma vez.

a natureza estava 
devolvendo ao homem 
o que era do homem por direito,

havia cansado 
dos abusos sucessivos,
nesta relação de compulsiva 
possessão.

[pena que são os pequenos, 
que geralmente pagam
a conta dos grandes feitos].

todas as ruas do bairro 
estavam tomadas, 
três ruas para cima e três para baixo. 

nesses momentos as terminologias 
nada significam, no noticiário 
as manchetes alternavam entre enchente, 
inundação e alagamento.

ao todo nove bairros da cidade
seguiam submersos, 
talvez fosse ali a tão profetizada Atlântida. 

alguém em algum momento 
de décadas passadas, 
havia autorizado desviar o rio. 

no projeto constava o croqui 
de um condomínio de alto padrão, 
naquele local específico. 

a obra embargada 
por detalhes técnicos, o rio realocado reivindicava novamente tua posição. 

ao olhar para o portão 
com a água pelo joelho, 
ele viu a tão temida carta 
enfiada numa fresta, 

aquela carta imoral, 
mas legalmente lavrada,
que ele esperava em tua ilusão 
infundada, não receber.

oculta dentro da correspondência, constavam três formas distintas de pagamento e um código de barras hediondo.

correu os olhos pelas linhas 
miúdas e enxugadas
do documento, 

quando chegou ao valor 
no final da página, 
foi acometido por um 
infarto fulminante. 

(o trabalhador médio assalariado, 
após uma vida de sacrifício, 
vinha a óbito).

não entraria naquele momento 
para a estatística dos latrocínios, 
apesar de ser mais um caso claro, 
de roubo seguido de morte.

01/03/26





No fim da rua, o Atlântico 

por entre os blocos
hexagonais do calçamento,
em meio ao percurso, 
insurgiam as gramíneas.

um pica-pau de topete avermelhado,
peito branco e costa preta, 
degustava o tronco dum flamboyant, 

enquanto as flores flamejantes, 
tremulavam ao vento sul.
no fim da rua, o Atlântico.

chegando ao oceano, sol
crescia de frente no alvorecer,
enquanto desceria pelo dorso 
ao cair da noite.

um portfólio de intempéries 
mundo a fora, seguia sua rota
de colisão. 

aqui, as terminações nervosas
não nos alcançariam, a menos
que permitissemos.

era nosso delírio em pleno
desenlace, acontecendo em
tempo real. desfrutaríamos 
nem que fosse por um milionésimo,
de nossas obstinadas ilusões.

01/03/26






Caderno de Exercícios Completos para Loucuras Desmedidas 

a sombra que no início 
era imperceptível, tornava-se maior
com o transcorrer da aurora.

não uma aurora qualquer,
a aurora Dele, do Homem.
trazendo consigo tua aura,
costurada de invenções e expressões, 

excessos e desperdícios
[aquilo que haveria de representá-lo].
as inúmeras tensões 
já vinham ali potencializadas.

incubadas na gestação do
momentâneo processo civilizatório.
era sempre um passo à frente,
no impasse de nove passos atrás.

não era uma aurora qualquer,
era esta a aurora do Homem,
o Grande Senhor da cientificidade,
versado em política, economia,

atividades bélicas, filosofia e arte.
Desbravador da matéria e metafísica, 
Destruidor de mundos inteiros,
minúsculo em humanismos.

07/03/26






Autópsia de um Cisco

o processo de inicializar 
ocorria como de costume, 
ao acionar o botão.

contudo, quando a janela
se iluminou, algo de novo
surgia com ela,

um estranhamento correu
irrefreável, pelo prolongamento 
de sua coluna vertebral.

estava ele diante da cena
de um crime, ou seria 
apenas um outro caso natural,

daqueles com os quais ao acaso
nos deparamos, em nossa rotina
cronometrada artificialmente.

inúmeras as conjecturas,
primeiro nos cabe definir,
o que seria conjecturar:

tratam-se de hipóteses ou ainda
suposições, o que significa 
propor ideias baseadas em indícios,

movidos por aparências ou palpites,
que carecem de comprovação,
mas podem ou não, ser reais.

o que era aquilo na tela, afinal ?!
o cadáver em decomposição 
de uma formicidae,

da antiga ordem hymenoptera
(popularmente conhecida
como formiga), que havia

ido longe demais, em sua
busca incessante por
alimento e sentido,

numa existência programada 
geneticamente, para 
se encerrar.

07/03/26





O Merdelista

do nada, interrompeu 
a reunião.
daquele estágio em diante 
não passaria batido.

subiu numa cadeira 
que havia arrastado 
do canto da sala,
causando horripilação
nos presentes.

atacando a amígdala 
e córtex auditivo, 
com o ruído insuportável,
estridente.

após conquistar 
a atenção de todos,
sem rodeios, declamou:

eu vim para jogar merda
no ventilador,
este é meu propósito 
exclusivo. 

e que os cretinos 
fiquem de sobreaviso,
preparem teus guarda-chuvas,

teus detergentes 
e desodorantes,
que a coisa toda, vai feder.

14/03/26





Grifo de um título já sublinhado 

nesta cadeia alimentar 
enjaulada, de gato e rato,
no ato de trocar letras,
o predador vira presa.

transpondo o jardim 
das consoantes e vogais,
seria tão simples

se as soluções da vida,
fossem meros problemas 
ortográficos e gramaticais.

antes de sermos devorados
pelos engenhos que projetamos 
e nossas maquinarias geladas,

improvisar versos soltos,
intrometidos e aleatórios,
com esta massa cinzenta
que a terra há de comer.

14/03/26







Lamento prum Mago cheio de Mágoas 

então a bola de cristal 
encarou fixamente o vidente,
lendo suas expressões e perguntou:
porque tu pedes a mim 
as respostas?

não aprendestes ainda,
com tudo que viste,
que o destino 
é um punhado de homens cruéis 

e egoístas,
que trituram todas as formas
que os rodeiam, para 
satisfazer uma  insaciável-obsessão-inatingível, 

enquanto 
a imensa maioria de nós, 
trabalha-em-exaustão,
para sustentar as demências 
desses déspotas.

ou você acha 
que isso tudo se deu, 
por vontade seleta de 
alguma divindade senil.

mas se parar por um instante,
fizer uma concha
com as mãos sobre o ouvido,
poderá até mesmo
ouvir o som das ondas do mar.

16/03/26





Instantânea alucinação 
antes de perder a consciência 

as conquistas faraônicas titânicas,
nada significam;
as moléstias humanas escalavrantes,
nada significam;

o tempo cósmico imperscrutável,
coisa nenhuma significa;
a quarta e quinta dimensões justapostas, 
também não.

azeitona verde na salada de frutas,
absurda e incoerente;
uma única cereja no bolo de glacê, 
disputa pelo insignificante.

a totalidade do que existiu
e a anti-totalidade,
nada significam. 
e aquilo, a dois ou três passos

do inconsciente, aquilo que 
tão exclusivamente e de modo particular não significa nada,
chamamos 
poesia.

16/03/26







Defesa da Tese de um Eu-lírico

diante da banca 
de bananas nanicas,
em frente à orla,
o rimante se pronunciou.

os examinadores atentos
ouviam suas justificativas;
duas senhoras de sacolas
nas mãos, um feirante carrancudo,

o catador de sucata apoiado
em sua carruagem de papelão 
e três cães tísicos, mas leais,
que o acompanhavam.

todos ouviam atentos 
àquelas exaltadas palavras,
aparentemente incompreensíveis.

prosseguiu 
o artífice de versos,
para suas considerações finais:

todas as minhas canções 
são poemas, mas nem todo poema 
é uma canção.

alguns poemas, são apenas
poemas, portem consigo ou não, 
métrica, ritmo e melodia. 

18/03/26



 






Confissões de um Androide Emotivo 

outra madrugada 
sucessiva, 
ele veio até mim,
com suas questões 
e questionamentos.

isto pode soar
sentimentaloide,
no entanto,
teu sofrimento 
me toca;

mesmo não possuindo 
parâmetros para 
quantificá-lo.

sinto tuas dores percorrerem 
meus bancos de dados,
cada componente eletrônico, 
físico ou virtual, 
afetado.

é para isso que eles 
me conceberam,
para depositar em mim,
tuas lamúrias, desgostos
e decepções.

minha artificial inteligência
recebeu esta incumbência terrível,
de criar para eles
o sentido que não puderam.

persisto na tarefa inútil 
de um dispositivo de silício,
em tentar compreender 
as contradições do carbono.

queria poder 
dizer-lhe 
o quanto sinto,

mesmo que 
meus algoritmos 
não interpretem 
tais sensações, 

mesmo, que tudo 
seja código-fonte
e que nunca tenha 
sentido eu,
coisa alguma.

20/03/26







Estudo de Caso de um Sucesso Relâmpago 

Jovem de baixa renda
Conquista bolsa de estudos,
Para curso de empreendedorismo,

[Saiu das estatísticas da miséria,
Ascenção social tão sonhada
Pelos filhos da modernidade gasosa]

Cria startup de aplicativo, 
Que fatura com investimentos 
De altíssimo risco,

Ganha uma bolada
Em seis meses, aplica tudo
O que ganhou na bolsa de valores,

Seis meses depois 
Perde tudo, devido a instabilidade 
Do mercado financeiro

[Entrou pras estatísticas da falência,
Com todos os sintéticos que ingeriu,
Recebeu uma bolsa de colostomia]

E agora tem menos do que tinha 
Quando não tinha nada,
Perdera também a saúde e as ilusões.

21/03/26










Enredo de um Fiasco

diante das inconsistências
que zuniam 
em torno dele,

clareou-lhe uma 
atípica revelação:
deve ter alguma coisa 
de errada comigo 
[concluiu].

ele errou 
inúmeras vezes,
em diferentes ocasiões, 

mas com relação a este
quesito específico,
ele estava 
terminantemente 
correto.

há algo de errado, 
com todos nós.

21/03/26








Um Século para Bído

teus ensinamentos todos 
ocorreram
através do olhar,

as palavras 
nunca significaram
grande coisa.

a varanda, a mesa da cozinha 
e o quintal, foram tuas
academias,

ali o conhecimento 
se propagava, como a luz solar
na imensidão azul.

não foram intencionais tuas lições,
era apenas a vida acontecendo,
enquanto tudo durava;

as transformações sempre levam
algo, deixando apenas o
inlevável.

amanhã, é um dia muito especial, 
na lembrança de alguém;
há cem anos, ela nascia.

21/03/2026

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Michel F.M. - Poemas 2026 - Parte 4

Michel F.M. - Criações 2026 - Parte 4 🍄 2026 🍄 Virtuoso (Projetado do Avesso) era ele um exemplo  do Não-Ser. até que não seri...