quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

O poema "Floresta de Cactos", de Michel F.M. (Bruno Michel Ferraz Margoni), é uma exploração introspectiva sobre a identidade do poeta e a natureza agridoce do fazer literário. O título sugere um ambiente de defesa e sobrevivência (espinhos), mas também de resiliência e beleza árida.



O poema "Floresta de Cactos", de Michel F.M. (Bruno Michel Ferraz Margoni), é uma exploração introspectiva sobre a identidade do poeta e a natureza agridoce do fazer literário. O título sugere um ambiente de defesa e sobrevivência (espinhos), mas também de resiliência e beleza árida.

Aqui está uma análise dos pontos principais:

A Dualidade do "Eu" Poético

O autor se define através de oxímoros e contrastes. Ele é, ao mesmo tempo:

"Artífice de ilusões" e "Operário de angústias": A escrita é vista como uma construção manual e sofrida.

"Toxicidade salutar": O poeta busca o que dói para curar; uma "limpeza" (profilaxia) que passa pelo veneno da palavra.

"Acidez sonhando alcalina": Há um desejo de transformação, de tornar o amargor do espírito em algo leve ou benigno.

O Ofício como Fardo e Magia

A metalinguagem é forte. O poeta descreve seu trabalho não como algo etéreo, mas como "trabalhador braçal" que usa tinta e papel.

A "Maldição": A poesia não é uma escolha, mas um karma. Ele admite não ter respostas, apenas perguntas "fundamentais e universais".

A Entrega: O desfecho é de uma honestidade brutal: o poeta não oferece soluções práticas, dinheiro ou estabilidade, apenas a subjetividade da arte.

A Mudança de Perspectiva (O Espelhamento)

O poema utiliza uma estrutura circular interessante:

Início: "Isso tudo não tenha a ver somente conosco" (A poesia é maior que o indivíduo).

Fim: "Isso tudo só tenha a ver conosco" (A poesia é, no fim, o elo íntimo e irremediável entre quem escreve e quem lê).

Estilo e Tom

O uso do "Blá blá e blá" introduz um tom de autocrítica e desfaçatez, quebrando a solenidade do "desbravador do espírito". Isso humaniza o poeta, mostrando que ele sabe da inutilidade prática de suas palavras ("palavreados ambicionando palavrões"), mas não pode fugir de sua essência.

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O poema "Floresta de Cactos" possui uma natureza híbrida, mas dialoga de forma muito direta com o Modernismo (especialmente a vertente da Geração de 22 e 45) e com traços do Simbolismo e do Existencialismo.

Aqui estão as principais conexões:

1. Modernismo: A Metalinguagem e o Cotidiano

A principal relação com o Modernismo brasileiro está na desmistificação do poeta.

O Poeta "Operário": Ao se descrever como "trabalhador braçal", Michel F.M. ecoa a ideia de João Cabral de Melo Neto (Geração de 45), que via a poesia não como inspiração divina, mas como um trabalho de engenharia, um esforço físico e técnico.

Ironia e Coloquialismo: O uso da expressão "Blá blá e blá" e "Pois é" quebra a "aura" sagrada da poesia. Isso é uma herança direta de Mário de Andrade e Oswald de Andrade, que trouxeram o tom da conversa e a autocrítica para dentro do verso.

2. Simbolismo: A Dualidade e a Toxicidade

Embora o estilo seja moderno, a temática flerta com o Simbolismo (e o Decadentismo):

Sinestesia e Alquimia: A busca pela "toxicidade salutar" e a "acidez sonhando alcalina" remetem à tentativa simbolista de transformar dor em beleza e de explorar as zonas obscuras da alma.

O "Karma" e a "Maldição": A ideia do poeta como um ser "maldito" ou marcado por um destino do qual não pode escapar é um tema recorrente na poesia do final do século XIX, onde o artista se sente isolado da sociedade produtiva.

3. Existencialismo: O Vazio e a Pergunta

O poema se ancora firmemente na filosofia existencialista, que influenciou grandes poetas do século XX:

A Ausência de Respostas: Ao dizer que possui "todas as perguntas... e nenhuma resposta", o autor se posiciona como o indivíduo que reconhece o absurdo da existência.

O "Sou só": A afirmação da solidão essencial do poeta é o pilar do existencialismo — a consciência de que o ser humano está sozinho em seu ofício de dar sentido ao mundo.

O poema parece uma "ponte" entre a tradição que sofre pela alma (Simbolismo) e a modernidade que trabalha a palavra como matéria bruta (Modernismo).

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Floresta de Cactos
(Michel F.M.)

Talvez uma única vez
Isso tudo não tenha a ver
Somente conosco.

Independente
do que você espera de mim,

Me antecipo às suas
Expectativas,
Ajo inesperadamente.

Mesmo parecendo óbvio,
Artífice de ilusões,
Operário de angústias,
Artesão da alma.

Pesquisador da profilaxia,
Busco certa toxicidade salutar,

Acidez sonhando alcalina,
Desejando ser benigna.
Blá blá e blá.

Desbravador do espírito,
Um trabalhador braçal
Que lavora com tinta e papel.

Palavreados 
Ambicionando 
Palavrões.

Possuo todas as perguntas
Fundamentais e universais 
E nenhuma resposta.

Talvez esta única vez
Isso tudo só tenha a ver 
Conosco.

Pois é,
Sou sim um poeta,
Sou só, 
Poeta.

Esse é meu ofício,
Meu karma, 
Maldição
E magia.

Não posso te oferecer nada,
Além de poesia.

[Livro: Revolesia (Volume Único) 13/01/23]

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